Nova geração da filantropia se prepara para a maior transferência de riqueza da história
Por: GIFE| Notícias| 08/09/2025
Foto: Istock
Nos próximos 20 anos o mundo viverá a maior transferência de riqueza da história: de acordo com o Relatório Global de Riqueza 2024 do banco UBS, cerca de US$ 80 trilhões mudarão de mãos, redesenhando o mapa do poder econômico e social.
Trata-se de um momento com potencial para gerar muitas transformações na filantropia, entre elas a adoção de um caráter sistêmico. É como pensa Rodrigo Pipponzi, cofundador do Instituto ACP e do Grupo MOL, e herdeiro da Droga Raia.
“A nova geração tem outra mentalidade, pensa a longo prazo, tem mais paciência. É uma turma que vai se preocupar não só com quanto vai doar, mas como. Isso tende a transformar muito a maneira como a gente enxerga a filantropia e seus impactos.”
Para ele, entre as tendências, uma filantropia menos burocratizada, que vai apostar muito no uso da tecnologia, seja para avaliar impacto ou promover novas soluções. Além de estreitar o olhar para áreas temáticas mais esquecidas e complexas de serem trabalhadas, que vão além das tradicionais como educação e saúde.
Belisa Maggi, presidente do Instituto Signativo e herdeira do Grupo Maggi, também observa tendências importantes para esse futuro próximo.
“A nova geração se comunica com uma abordagem mais aberta, de diálogo direto, não aceita a subordinação. Também olham mais para os sentimentos, a tendência é que sejam lideranças que tenham voz e deem voz, mais atentos, que conseguem ler melhor o ambiente. Eu acredito nessa liderança futura.”
O caminho para que essa transição de lideranças aconteça de forma tranquila e ao mesmo tempo aberta a transformações necessárias, requer estratégias que envolvam tanto quem transmite quanto quem assume a responsabilidade.
Na família Setubal, Tide Setubal Souza e Silva Nogueira, conselheira na Fundação da família, e coordenadora do projeto Territórios Clínicos, conta que lembra exatamente quando a mãe, Maria Alice Setubal, convocou a ela, seus irmãos e primos para se prepararem para a atuação na filantropia.
“A partir dessa provocação, criamos um Grupo de Trabalho de Investimento Social Privado, no qual a gente se reúne uma vez por mês para discutir assuntos do campo.”
Nesse processo, lembra de conversas feitas com a equipe do GIFE, para entender melhor a atuação da filantropia. “Acho que o GIFE tem um papel nisso, de convocar tanto as gerações atuais, quanto as próximas, para se reunirem e falarem sobre o assunto.”
Autoconhecimento e diálogo intergeracional que preze pela escuta atenta, são as apostas de Belisa Maggi. “Acredito muito em uma conscientização não só social, mas de si. É daí que pode despertar a consciência para a filantropia, de que quanto mais eu tenho, mais eu posso fazer. É o que também dá abertura para as conversas difíceis, que na verdade são necessárias. A maior estratégia está na comunicação intergeracional assertiva, que passa por aprendizado e respeito mútuo.
Para Rodrigo Pipponzi, uma estratégia interessante é que as famílias assumam compromissos públicos, como doar determinada porcentagem das suas fortunas. Mas é preciso entender que não há transição sem prática. Assim, a nova geração precisa ser ousada: vai testar, errar, inovar e aprender com o processo.
“É importante criar no Brasil fóruns entre as famílias, para fazer essa conversa circular, trabalhar em parceria, para que essa transição seja mais natural.”
No campo tanto das estratégias quanto da preocupação para que essa transferência de riqueza não seja apenas de recursos, mas também de poder, Tide e Pipponzi convergem em um ponto: as novas gerações precisam ter contato com a realidade, e entender criticamente o contexto do país em que vivemos.
Tide Setubal Souza ressalta, por exemplo, que a lógica da filantropia é muito diferente das empresas, logo, é preciso preparação teórica e prática para transitar entre os setores. Seja estudando os marcadores de classe, raça, gênero e território, de distribuição de renda, seja indo a campo. “Como você vai decidir repassar um recurso se você acha que na periferia só tem gente despreparada, não conhece seus desafios e potências? Não é só gostar de uma organização, é preciso entender o princípio de atuação, se irá executar um projeto, fazer grantmaking. Não dá pra ser uma coisa amadora.”
Para redistribuir poder, Rodrigo Pipponzi observa que a maneira crítica como o acúmulo de grandes fortunas é vista hoje na sociedade pode ser uma oportunidade, com reivindicações cada vez mais sólidas para a tributação de bilionários. Também avalia que o diálogo com os family offices é um importante obstáculo.
“Não adianta fazer um discurso lindo e continuar financiando coisas que não são legais, doando só 0,01% do meu patrimônio ou continuar sendo assessorado por quem não entende absolutamente nada disso e, pior, não se preocupa com isso. As novas gerações começam a pressionar muito mais essa turma.”
Mas ele pontua que, anterior a todos esses desafios, é preciso lidar com a mudança de mentalidade entre as gerações. “Estamos falando de uma lógica decolonial, de reparação, que demanda uma convivência com o desconforto. Sinto que a geração que vai herdar esses recursos é muito mais corajosa e apta a conduzir essas conversas”, finaliza.