Do apoio operacional à inovação social: como a IA chega ao terceiro setor
Por: GIFE| Notícias| 22/09/2025
Imagem: Istock Foto
A Inteligência Artificial (IA) deixou de ser um futuro distante e se tornou uma disputa do presente. Usá-la não é mais uma questão de “se”, e sim de “como”. No terceiro setor não é diferente, e o campo tem sentido essa realidade.
“Quando guiada por valores de inclusão, ética e justiça social, a IA pode se tornar vetor de desenvolvimento em áreas centrais”, afirma Ana de Fátima Sousa, gerente-executiva de Comunicação da Fundação Itaú. Entre as prioridades, ela destaca a centralidade dos mais vulneráveis no desenvolvimento tecnológico; a necessidade de governança ética diante de dilemas como privacidade e vieses; e a urgência de uma educação crítica, capaz de formar cidadãos aptos a questionar a lógica dos algoritmos. “Essas reflexões dialogam diretamente com a missão do terceiro setor de reduzir desigualdades, ampliar direitos e fortalecer a democracia.”
Recentemente, a Plataforma Conjunta realizou o Webinar “Inteligência Artificial para o Bem Comum: o que significa isso na prática?”, reunindo especialistas e lideranças do terceiro setor para discutir usos éticos e estratégicos da IA. A edição especial Futuros Possíveis da Stanford Social Innovation Review Brasil, com apoio da Fundação Itaú, reuniu artigos que refletem como a tecnologia está redefinindo modos de pensar, decidir e viver.
Cássio Aoqui, co-fundador do Canal SabIAr, reforça que a grande questão não é apenas o potencial da IA, mas para quem ela chega. Na educação, por exemplo, o pesquisador já observa usos importantes, como a personalização da trajetória de aprendizagem de jovens em risco de evasão escolar. Na saúde, a IA pode ajudar no monitoramento de doenças crônicas; organizar dados de prontuários, lembrar pacientes de consultas e facilitar diagnósticos precoces.
No desenvolvimento institucional, os ganhos vão além da automatização de tarefas, como gestão financeira, análises de editais e produção de relatórios. “O verdadeiro valor está em liberar um tempo para o que é insubstituível. O cuidado, as relações, a escuta entre equipes e comunidades”, analisa. Ele alerta que os ganhos de tempo não podem virar mais pressão por produtividade, mas sim fortalecer vínculos e planejamento.
Uso cotidiano
A pesquisa Consumo e uso de Inteligência Artificial no Brasil, da Fundação Itaú, mostra que, no uso pessoal, a IA já é usada em buscas de informação e geração de conteúdo. “Se no nível pessoal a IA ajuda a resumir textos ou responder dúvidas complexas, no corporativo ela pode ser aplicada na gestão de conhecimento, sistematização de pesquisas e apoio à tomada de decisão baseada em evidências”, explica Ana de Fátima.
Já um estudo do SabIAr revelou que, no campo social, a IA ainda é utilizada majoritariamente em atividades-meio: 70% das organizações testaram ferramentas para comunicação e criação de conteúdo. Já em áreas como análise de dados, avaliação de impacto e apoio direto às causas, o uso ainda é incipiente. Um dos casos de sucesso é o MapBiomas, que aplica IA para identificar desmatamento ilegal quase em tempo real e acionar mecanismos de fiscalização.
“No caso do Investimento Social Privado [ISP], é possível usar a IA para redesenhar editais de forma mais inclusiva, alavancar impactos sociais em escala, mapear lacunas de políticas públicas, e até fomentar uma infraestrutura digital pública”, projeta Cássio Aoqui.
Ele também aponta a necessidade de nivelar o acesso: grandes organizações, com redes de contatos, tendem a concentrar recursos, enquanto coletivos locais e periféricos ficam em desvantagem. “Eu tenho trabalhado muito com pequenas organizações para que elas se apropriem da IA e nivelem essa desigualdade.”
Desafios e oportunidades
Para alcançar esses avanços, ainda existem desafios importantes pelo caminho. A maioria dos mais de 400 respondentes da pesquisa conduzida pelo SabIAr demonstrou pouca preocupação acerca de questões éticas e regulatórias. Muitos não checam as respostas oferecidas pela ferramenta, por exemplo, dados que alertam que para além da inclusão digital, é preciso uma inclusão crítica, regulatória e interseccional
A garantia de que a IA contribua para a transformação social, fortalecendo organizações e democratizando direitos, não está na tecnologia em si, mas nas escolhas coletivas. “Para o ISP, a responsabilidade é grande. Precisamos investir em letramento ético de dados, infraestrutura digital pública, governança participativa. Se a gente não agir agora, podemos perder a oportunidade de reposicionar a sociedade civil como protagonista nesse debate. E a IA pode ser mais uma onda que nos atropelou, em vez de uma alavanca para construir outros mundos possíveis”, finaliza Cássio Aoqui.