Brasil vive avanço histórico dos endowments, mostra Anuário de Fundos Patrimoniais
Por: GIFE| Notícias| 10/11/2025
Crédito: Istock
Garantir que uma causa social, cultural ou científica se mantenha viva e financeiramente sustentável ao longo do tempo, mesmo diante de crises e mudanças de gestão, é um desafio constante para instituições sem fins lucrativos. É com essa finalidade que universidades, museus, orquestras, hospitais e tantas outras organizações da sociedade civil criam Fundos Patrimoniais, ou endowments, mecanismos que reúnem doações para formar um patrimônio permanente, cuja rentabilidade assegura recursos previsíveis e duradouros para a manutenção de suas atividades e a continuidade de suas missões.
Neste mesmo espírito de sustentabilidade e compromisso público, as organizações comunitárias desempenham um papel estratégico ao mobilizar e direcionar recursos para fins coletivos em seus territórios, também por meio de fundos patrimoniais
“As fundações e institutos comunitários nada mais são do que organizações independentes, que captam e distribuem recursos em benefício de um território”, explica Felipe Insunza Groba, Consultor em Investimento Social Privado no Idis – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social.
Ele conta que esse é um modelo de filantropia bastante conhecido e tradicional no mundo. “São estruturas filantrópicas que passam seus recursos para essas organizações porque sabem que vão fazer uma gestão responsável e maximizar seu rendimento. É um mecanismo que tem enorme potencial no Brasil.”
Potencial que pode ser observado na 4ª e mais recente edição do Anuário de Desempenho de Fundos Patrimoniais, publicado pelo Idis. O levantamento contou com 92 respondentes, gestores dos fundos patrimoniais, que juntos somavam um patrimônio de R$ 139 bilhões.
Os dados apontam para uma forte concentração geográfica, que reflete a própria concentração da filantropia no Brasil: 80% dos respondentes estão em São Paulo, Rio de Janeiro e região Sul do país. A região Nordeste não teve nenhum respondente. Outra constatação do estudo é que as causas apoiadas se concentram em áreas clássicas da filantropia, sobretudo educação.
O Anuário revelou ainda que a criação dos fundos apresentou um crescimento mais expressivo a partir da última década, passando de apenas 11 nos anos 2000, para 35 a partir de 2010, número que se manteve em 2020. Andrea Hanai, gerente de projetos no Idis, acredita que esse ritmo se deve ao trabalho de advocacy iniciado pelo próprio Instituto a partir de 2011.
Uma das iniciativas que conheceu esse mecanismo a partir do Idis é o recém criado Fundo Polifonia, em atividade desde julho deste ano. O saxofonista e idealizador do projeto, Gustavo Müller, dirige uma das orquestras mais antigas do país em Novo Hamburgo (RS), e também um projeto social de educação musical para jovens. Foram os desafios para captar recursos públicos, dos quais o projeto dependia exclusivamente, que ele passou a estudar os endowments.
“O Anuário é minha melhor ferramenta de convencimento, porque eu estou num lugar onde ninguém nunca nem ouviu falar de fundos patrimoniais.” Entre os obstáculos enfrentados por ele, está a desconfiança, por não haver familiaridade com a ideia de doar um recurso que se manterá de forma perene nos territórios.
“Nosso projeto hoje está em 26 das 52 escolas municipais, eu já tenho mais de 400 crianças estudando instrumentos. Isso só é possível com investimento. Os fundos patrimoniais são a solução de sustentabilidade de muitos projetos, e podem transformar nosso país.”
Em relação às entradas e saídas de recurso dos fundos, o Anuário apresenta uma boa notícia: no ano de 2024, os fundos patrimoniais respondentes da pesquisa receberam R$ 770,4 milhões em doações, um aumento de quase 50% em relação a 2023. Em contrapartida, existe um elevado nível de concentração nessas doações. Somente os cinco maiores captadores reúnem 79% desse total.
Os gestores respondentes dividiram ainda suas expectativas para o futuro, que foram majoritariamente otimistas, revelando uma postura institucional de continuidade.