Desigualdade no Brasil mantém jovens negros longe da universidade, revela estudo
Por: GIFE| Notícias| 01/12/2025
1º Encontro de Cotistas Egressos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Uma nova pesquisa realizada pelo British Council, organização internacional de educação e cultura vinculada ao governo do Reino Unido, expõe a permanência de desigualdades profundas no acesso de jovens à universidade no Brasil. Os dados revelam que, entre os brasileiros que estão fora do ensino superior, a maior parte é composta por pessoas negras: a cada cinco jovens excluídos, três são negros.
O cenário reforça um padrão que especialistas já identificam há anos, mas que ganha contornos ainda mais alarmantes diante das condições econômicas e sociais enfrentadas pela juventude. O relatório Next Generation Brasil 2025 mostra que a disparidade aparece já na etapa anterior. No ensino médio, a evasão atinge com mais força estudantes negros: 63% dos jovens que interromperam os estudos são negros, enquanto entre brancos esse índice é de 33%. A pesquisa também mostra que metade dos brasileiros de 19 a 24 anos não está matriculada em cursos formais nem possui diploma universitário.
“O ensino superior é racista e afasta esses jovens. Então, mesmo aqueles que entram no ensino superior, eventualmente acabam saindo, sendo expulsos devido a vários fatores, entre eles os estruturais”, comenta Katemari Diogo da Rosa, professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e integrante do Comitê Permanente de Ações Estratégicas e Políticas para Equidade de Gênero da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Ela ainda destaca as problemáticas epistemológicas do meio acadêmico no Brasil.
“Os conhecimentos, a tradição, a cultura universitária são brancos, europeia. Nossa universidade é estruturada a partir dos moldes das universidades francesas, então você tem uma cultura acadêmica que efetivamente afasta jovens negros”, completa.
Entre as causas do afastamento dos estudos, o levantamento evidencia que a falta de recursos financeiros é o elemento mais determinante. Nesse sentido, 39% dos entrevistados apontaram esse fator como principal impeditivo para seguir estudando. Demandas familiares, como cuidar de irmãos, de filhos ou assumir responsabilidades domésticas, e problemas de deslocamento até a escola aparecem logo em seguida, ambos citados por 19% dos jovens. Outras dificuldades, como a percepção de pouco apoio de professores (18%) e a ausência de cursos de qualidade próximos de casa (17%), também contribuem para a decisão de interromper a formação.
De acordo com o estudo, a diferença de renda acompanha as desigualdades educacionais: jovens brancos ganham, em média, 19% a mais do que a média ponderada da amostra, enquanto jovens pretos recebem 31% a menos. Entre pardos, a renda é 12% inferior à média. O levantamento também indica que mais da metade dos jovens pretos recebe menos de um salário e meio por mês.
Cotas
Apesar do Brasil contar há mais de uma década com políticas de cotas raciais nas universidades públicas, o levantamento mostra falhas na implementação desse mecanismo e a necessidade de melhorias, como observa Rosani Matoso, diretora presidente do Instituto Mancala. “Eu acredito que as cotas são um mecanismo de correção dessas desigualdades, mas ela não dá conta de ser a única solução para resolver esse problema tão complexo”, avalia.
“A gente tem que investir numa política de permanência e de manutenção, investir numa preparação prévia dessas pessoas para que quando adentrarem o ensino superior tenham condições de se manterem, de permanecerem e de saírem com seus diplomas”, continua, a diretora que ainda chama atenção para a importância do combate aos estigmas sociais direcionados a estudantes cotistas.
“A gente tem dado importantes passos, mas ainda é preciso que a gente olhe de maneira mais holística, mais cuidadosa para o problema. A gente precisa de investimento, infraestrutura, alimentação para esses estudantes, fazer com que eles possam se dedicar de maneira exclusiva ao ensino superior”, completa.
Parcerias
Para reverter esse quadro, Katemari Diogo da Rosa defende que o Estado assuma seu papel central, mas destaca que a transformação exige articulação com a sociedade civil. “Os movimentos sociais organizados que têm ação limitada, são extremamente importantes. Eu acredito muito na mobilização, na multiplicidade de mobilizações pequenas. Eu acredito muito no trabalho local. Então, eu acho que isso é fundamental em conjunto com ações mais amplas, nacionais”, diz.
Na mesma linha, Rosani Matoso acredita que é importante que haja essa articulação junto ao Investimento Social Privado (ISP). “Diante de tanta desigualdade, o ISP pode fortalecer iniciativas estruturantes, como programas de permanência, concessão de bolsas, mentorias e o desenvolvimento de redes de apoio. Por isso, considero que ele é, sim, um aliado estratégico e fundamental no enfrentamento das desigualdades que afastam tantos jovens da universidade”, conclui.