Com crescimento em destinação de recursos e grantmaking, Censo GIFE mostra mudanças no perfil dos investidores e focos de atuação. Persistência em desigualdades de gênero e raça nos conselhos mostra limites e desafia o setor a uma atuação mais estratégica.
O Investimento Social Privado (ISP) brasileiro alcançou R$ 5,8 bilhões em 2024, segundo o Censo GIFE 2024–2025. O valor é o segundo maior da série histórica, atrás apenas de 2020, ano marcado pela pandemia de Covid19. A nova edição também registrou a maior taxa de participação já alcançada: 138 respostas, o equivalente a 84% da base associada ao GIFE.
foi o valor total investido pelas organizações respondentes do Censo GIFE em 2024, ficando atrás somente do valor investido em 2020, quando da eclosão da pandemia de covid-19.
Nota: Valores corrigidos pelo IPCA de dez./2024. Responderam a esta pergunta 103 organizações em 2012, 105 em 2013, 107 em 2014, 105 em 2015, 112 em 2016, 125 em 2017, 128 em 2018, 120 em 2019, 126 em 2020, 129 em 2021, 134 em 2022, 129 em 2023, 130 em 2024 e 2025.
A pesquisa mostra que Institutos e Fundações Empresariais seguem na liderança do volume investido, com R$ 3,2 bilhões, enquanto o ISP Independente mantém trajetória de expansão. “Nos chama atenção o crescimento tanto do número de organizações que se autodeclaram independentes quanto do volume de recursos aportados por elas”, afirma Patricia Kunrath, coordenadora de Conhecimento do GIFE. O grupo ultrapassou o investimento das organizações familiares em 2020 e atingiu, em 2024, mais de R$ 1 bilhão.
Em sentido oposto, o investimento familiar teve retração de quase 60% em dez anos. Para Carola Matarazzo, presidente do Conselho de Governança do GIFE, a informação acende alerta: “É um dado que nos desafia a pensar formas de reativar esse pertencimento, atrair novas gerações para o campo e fortalecer um perfil tão relevante do ISP.”
Lia Glaz, diretora-presidente da Fundação Telefônica Vivo, observa que a consolidação de endowments pode ajudar a equilibrar essa transição. “Embora a maior parte dos investimentos venha das empresas, há uma parcela relevante dos endowments. Isso gera um olhar para a longevidade do investimento, especialmente em um cenário de redução dos aportes familiares. Essa triangulação entre o empresarial e o familiar é fundamental.”
Para ela, a predominância empresarial também impõe responsabilidades. “Se antes a atuação era muito pautada em pequenos projetos pilotos, vemos hoje maior alinhamento com advocacy e políticas públicas, algo coerente com o amadurecimento do setor.”
Ao analisar os dados, Cássio Aoqui, pesquisador em serviços filantrópicos, destaca a necessidade de reconhecer contradições internas do setor: “A mudança profunda que o campo almeja não virá automaticamente do ISP, sobretudo porque grande parte dele segue ancorada em lógicas empresariais e em interesses que não necessariamente confrontam o status quo.”
Ele aponta também para a origem dos recursos: “Quase 40% dos bilhões do setor vêm de rendimentos financeiros. É preciso perguntar onde esse dinheiro está rendendo e a serviço de quais causas. Às vezes são as que nós do campo socioambiental lutamos contra.”
Cida Bento, fundadora do Centro De Estudos Das Relações De Trabalho E Desigualdades (CEERT) e conselheira do GIFE, demonstra duas preocupações. A primeira é a urgência de manter conectadas as agendas ambientais e das desigualdades, evitando que esta última seja deixada de lado em nome da primeira. “Não queremos que entre um grande volume de recursos nesse país criando outro ciclo econômico pensado sem nós, sem o território, sem as mulheres, sem pessoas negras, quilombolas, indígenas”, afirma.
A segunda diz respeito à necessidade de distinguir o papel de organizações estruturadas do papel dos movimentos sociais que historicamente sustentam as pautas de gênero e raça. Para ela, é perigoso que grandes corporações passem a executar diretamente ações sociais, quando deveriam apoiar as organizações de base.
Para Cassio França, secretário-geral do GIFE, o momento exige articulação mais estratégica entre investidores privados e organizações da sociedade civil. “O ISP detém hoje capital político, institucional e relacional capaz de abrir portas que muitas OSCs não conseguem acessar. Mas essa incidência só fará sentido se estiver conectada ao território e às causas que historicamente sustentam a disputa por direitos.”
Arte: Fany Lima
Uma das transformações mais relevantes desta edição é o crescimento do repasse direto de recursos para Organizações da Sociedade Civil (OSCs). A proporção de organizações que destinam parte de seus orçamentos a iniciativas de terceiros subiu de 64% em 2022 para 72%, e o volume repassado saltou de R$ 350 milhões em 2016 para R$ 1,3 bilhão em 2024.
“Recurso filantrópico pode e deve assumir riscos para trazer soluções novas a problemas complexos”, afirma Carola Matarazzo. “Seguimos entre os países mais desiguais do mundo, onde o 1% mais rico concentra 63% da riqueza nacional. Falar de investimento social nesse contexto exige coragem, disposição para experimentar e assumir risco.”
O ganho de maturidade também é destacado por Cassio França: “Os dados confirmam a disposição do setor em apoiar iniciativas lideradas nos territórios.” Porém, o crescimento precisa ser acompanhado de atenção à diversidade de beneficiários, é o que aponta Maria Luiza Pinto, vice-presidente executiva de Sustentabilidade, Comunicação e Marca da Suzano. “Caso contrário, vamos doar apenas para as organizações já grandes e maduras que conhecemos. Isso é repetir um modelo que não deu certo.”
O Censo mensurou pela primeira vez os investimentos em clima: R$ 368 milhões, equivalentes a 6% do total, proporção acima do patamar global de 3%, segundo o Funding Trends 2025. Eventos extremos – como enchentes no Rio Grande do Sul, seca no Amazonas e incêndios no Pantanal – impulsionaram também o Apoio Emergencial, que saltou de R$ 112 milhões em 2022 para R$ 786 milhões.
Arte: Peu Pereira
A educação segue como principal área: 67% das organizações atuam com educação formal e não formal. Porém, houve queda consistente na série histórica, de 84% em 2016 para 67% em 2024, uma redução de 17 pontos percentuais.
Para Maria Luiza Pinto, o movimento indica redirecionamento, não abandono: “Para mim, não é sair do investimento em educação, mas focar na aceleração da entrada desses jovens no mercado de trabalho.”
Arte: Rafael LaCruz
A edição 2024–2025 reafirma a ampliação das agendas de direitos no ISP. Equidade racial mobilizou 31% das organizações (R$ 116 milhões), igualdade de gênero e direitos LGBTQIAPN+, 25% (R$ 89 milhões), e inclusão de pessoas com deficiência, 16% (R$ 26 milhões).
Mas, a governança interna das organizações segue marcada por forte desigualdade racial. Os conselhos deliberativos são compostos por 66% de homens e 89% de pessoas brancas. Em um intervalo de 10 anos (2014-2024), houve um crescimento de apenas 7% no número de mulheres nesses espaços decisórios, saindo de 27% para 34%.
Diante desse cenário, Maria Luiza Pinto reconhece que a desigualdade também se reflete na governança da Suzano. “É diferente do retrato dos beneficiados pelos nossos projetos, onde a maioria são mulheres e negros. Não tivemos esse olhar na governança, é algo que precisamos.”
Em 2024,
das organizações declararam contar com pessoas negras (pretas ou pardas) em seus conselhos; em 2022, esse percentual era de
Nota: Responderam a esta pergunta 90 organizações em 2016, 103 em 2018, 102 em 2020, 103 em 2022 e 108 em 2024. Respostas múltiplas.
Nota: Responderam a esta pergunta 90 organizações em 2014, 90 em 2016, 100 em 2018, 99 em 2020, 105 em 2022 e 111 em 2024. As porcentagens foram arredondadas e podem não totalizar 100%.
Para Cida Bento, o entrave central está no receio das elites decisórias de perder espaço. “O que trava o avanço da equidade é o medo que os grupos que historicamente ocupam esses espaços têm de perder o lugar de ser quem decide por onde o país caminha. Ajudaria a dar um salto se tivéssemos rodas de conversa de confiança com quem tem a caneta na mão, onde pudesse emergir o que assusta, o que deixa inseguro em permitir o avanço de pessoas negras neste território que os brancos acham que são deles.”
Arte: @Ilustramar
O Censo GIFE indica espaço para expansão do ISP, maior profissionalização e consolidação de práticas mais estratégicas. “A filantropia se consolida como parceira do Estado e da sociedade civil ao aportar recursos flexíveis e ampliar canais de participação”, defende Cassio França. “O setor tem potencial de contribuir para mudanças estruturais e para um país mais justo, sustentável e democrático.”
Ao pensar no futuro, Carola Matarazzo destaca como desafio trazer para os investidores a consciência do tamanho e complexidade da demanda do país, para que coloquem o grande repertório que o setor tem adquirido em benefício do bem comum do Brasil. “Tem problemas complexos que só terão soluções com olhar sistêmico, coalizões e inteligência colaborativa. A transformação está nas mãos das empresas, das elites, de quem tem poder para tomar decisão e alocar recurso resiliente, paciente e inovador.”
Arte: Wellington Neri da Silva (Tim)
Natália Passafaro
COORDENAÇÃO DE COMUNICAÇÃO
Geovana Miranda
ANALISTA DE COMUNICAÇÃO
Afirmativa
REPORTAGEM/TEXTO
Marina Castilho
DESIGN & DESENVOLVIMENTO