Crescimento da atuação das OSCs convive com desafios estruturais de financiamento, aponta estudo
Por: GIFE| Notícias| 02/02/2026
Crédito: Istock
O crescimento da demanda por serviços prestados pelas organizações da sociedade civil está se revelando uma tendência global, e o Brasil não foge à regra. De acordo com o Panorama das ONGs: capítulo Brasil, pesquisa lançada pelo IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social, 78% das organizações no mundo, ouvidas em 2025, afirmaram ter registrado aumento da demanda por seus serviços, e 83% esperavam que essa pressão continuasse no ano seguinte.
No recorte brasileiro, embora o ritmo de crescimento seja ligeiramente inferior à média global, as lideranças se destacam pela confiança: entre aquelas que projetam aumento da demanda, 44% se declaram “muito confiantes” de que conseguirão atendê-la.
Para o IDIS, o aumento da demanda não é, em si, um problema. Segundo Luisa Gerbase, gerente de comunicação e conhecimento do instituto, as ONGs historicamente cumprem um papel central no país, seja no apoio a causas diversas, na implementação de políticas públicas em parceria com o Estado ou na incidência por proteção de direitos. O desafio, segundo ela, está na capacidade de adaptação das organizações diante do novo cenário.
“Nossos líderes estão otimistas, mas, ao mesmo tempo, o estudo revela preocupação em relação à saúde financeira, em especial captação de recursos e acesso a recursos livres, e pessoas, com destaque para atração e retenção de talentos, além do bem-estar das equipes. Essas variáveis mostram-se como gargalos para sua atuação adequada”, afirma.
A sustentabilidade financeira aparece como o principal desafio para 66% das ONGs brasileiras ouvidas pela pesquisa, um dado que aponta para limites estruturais do ecossistema de financiamento social. As organizações apresentam ainda uma média de 3,9 fontes de financiamento, o que indica certo esforço de diversificação, tendo como principal fonte de recursos os doadores individuais. Também ganham destaque os fundos patrimoniais, apontados no relatório como um mecanismo emergente de resiliência.
“Apesar dessa diversificação, o capítulo Brasil aponta riscos associados à dependência de recursos destinados a projetos específicos e à necessidade de ampliar o acesso a recursos livres”, completa Luisa Gerbase, que defende que mudar esse cenário depende também de novas atitudes de financiadores.
Essa leitura é aprofundada por Rodrigo “Kiko” Afonso, diretor-executivo da Ação da Cidadania, que enxerga no aumento da demanda um paradoxo cada vez mais presente no cotidiano das organizações. Para ele, a ampliação das solicitações evidencia a incapacidade do Estado e do mercado de responderem sozinhos às urgências sociais, reforçando a legitimidade das ONGs. Ao mesmo tempo, expõe as organizações a um nível de sobrecarga que ameaça sua sustentabilidade.
“O que temos visto, na prática, é que esse aumento não vem acompanhado de mais apoio financeiro, pelo contrário. Muitas ONGs estão sendo demandadas a fazer mais, com mais complexidade, mais escala e mais responsabilidade, sem que haja recursos compatíveis para sustentar esse crescimento”, afirma.
Segundo Kiko, há um movimento preocupante de empresas e instituições procurando ONGs para apoiar ações, campanhas e territórios, mas sem oferecer contrapartidas financeiras reais que permitam às organizações expandir equipe, infraestrutura, sistemas e capacidade operacional. O risco, avalia, não é apenas de esgotamento das equipes, mas de perda de qualidade, de foco estratégico e até de sustentabilidade de longo prazo.
Outro eixo central do relatório diz respeito à relação entre ONGs e poder público. Embora as organizações sejam amplamente reconhecidas como parceiras estratégicas na implementação de políticas públicas, 51% das lideranças afirmaram não conseguir avaliar se a influência do poder público sobre o setor é positiva ou negativa.
Para Luisa Gerbase, esse dado revela uma contradição: apesar da ampliação dos espaços de participação social nos últimos anos, as demandas das ONGs nem sempre são efetivamente consideradas nos processos decisórios por congressistas e legisladores.
Kiko Afonso vai além e aponta que o principal gargalo dessa relação está na dependência financeira. Segundo ele, quando a sobrevivência da organização está atrelada a recursos públicos, a parceria tende a se tornar problemática. Por outro lado, ele destaca que organizações financeiramente independentes conseguem estabelecer relações mais equilibradas com o poder público, atuando como pontes entre o Estado e os territórios.
“Se quisermos um setor forte, inovador e capaz de enfrentar as desigualdades de forma estrutural, precisamos urgentemente mudar a lógica do financiamento social no Brasil: menos projetos pontuais, mais confiança institucional; menos instrumentalização, mais parceria de longo prazo”, finaliza.