Pesquisa mapeia 200 iniciativas de comunicação em comunidades quilombolas como estratégia por justiça climática
Por: GIFE| GIFEnaCOP| 02/03/2026
Crédito: Istock
Entre mídias independentes, produtores de conteúdo, coletivos, profissionais da fotografia e perfis voltados às festividades, o Brasil reúne pelo menos 200 iniciativas comunicacionais e culturais em comunidades quilombolas. É o que aponta uma pesquisa realizada pelo Instituto Sumaúma.
Ao mesmo tempo em que estruturam redes próprias de informação, rádios comunitárias, coletivos culturais e produção de conteúdo digital, esses territórios enfrentam impactos diretos das mudanças climáticas: 54,7% relatam secas, 43,4% perdas de plantações e 58,4% convivem com exploração de terras, invasões ou garimpo.
Os números fazem parte do relatório “Corpos-territórios quilombolas e o fio conectado da ancestralidade: entre as agendas de justiça climática e as práticas culturais e comunicacionais”, que constata que, diante dos problemas climáticos globais, há uma invisibilização dos impactos desses desafios nas populações quilombolas.
“Se antes, a relação dessas populações com a Natureza era vista como negativa, levando-as a serem violentados por essa conexão, tida como pagã; hoje as populações quilombolas são praticamente esquecidas no debate e precisam buscar estratégias de comunicação para o reconhecimento de sua luta por justiça climática”, diz o documento.
Nas comunidades rurais, o rádio segue central, sobretudo pela extensão territorial e pelas limitações de infraestrutura. Em muitos locais, saneamento básico e energia elétrica ainda são desafios, ao mesmo tempo em que grandes corporações de tecnologia avançam sobre áreas com abundância hídrica para instalação de data centers.
Além de mapear práticas, o estudo buscou identificar lacunas. Uma das mais contundentes está no acesso a financiamento. A pesquisa revela que grande parte dos grupos mantêm suas atividades com recursos próprios. Taís Oliveira, diretora executiva do Instituto Sumaúma, explica que a linguagem do campo filantrópico, repleta de termos técnicos, métricas e exigências documentais, se distancia da realidade de comunidades cuja tradição é fortemente marcada pela oralidade.
“A filantropia pode e deve colaborar para promover a autonomia dessas comunidades, porque o território brasileiro é indígena e foi desenvolvido pela mão de pessoas negras, e essas comunidades vêm desde então resistindo para para manter os seus espaços”, relata a diretora.
Entre os destaques do levantamento está a Rede Kalunga Comunicações, iniciativa do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga, o maior território quilombola em extensão do Brasil, com mais de 39 comunidades na região da Chapada dos Veadeiros (GO). Os participantes listaram conversas sobre comunicação comunitária, rádios locais, sessões de cinema, rodas de conversa, reuniões e oficinas de formação. Além da produção de oficinas, eventos, podcasts, jornal e conteúdos audiovisuais.
“A rede produz conteúdos que fortalecem a visibilidade das comunidades Kalunga, promovendo informação, educação e cultura. Essas ações ampliam as vozes quilombolas, fortalecem a comunicação comunitária e valorizam a ancestralidade, atuando como uma poderosa ferramenta de transformação social”, declararam ao Sumaúma.
Uma estratégia que o relatório também pôde constatar, foi a diferenciação entre comunicação interna e externa. Dentro das comunidades, prevalecem práticas orgânicas, baseadas na oralidade e na convivência cotidiana. Já a comunicação voltada para fora, como imprensa e redes sociais, exige estratégia e enfrentamento de distorções, que muitas vezes são observadas na imprensa tradicional.
Como desdobramento da publicação, o Instituto lançou ainda um mapa digital com as iniciativas identificadas. A plataforma reúne projetos culturais, veículos comunitários, coletivos de comunicação e experiências de geração de renda, como venda de produtos artesanais e turismo de base comunitária. A ideia é que o mapa ajude as comunidades a se conhecer, trocar insumos, articular parcerias e fortalecer redes. “É uma luta coletiva, de juntar os conhecimentos dos povos quilombolas com os dos povos indígenas e fortalecer a proteção das florestas”, finaliza Taís Oliveira.