A disputa por narrativas e o papel da comunicação estratégica na defesa da democracia

Diante do avanço da desinformação e da intensificação da polarização, especialistas e organizações analisam como a comunicação estratégica pode fortalecer direitos, ampliar a participação social e abrir caminhos para uma atuação mais estruturada do investimento social privado

Em 2026, o Brasil chega a mais um ano eleitoral no qual as percepções a respeito de um país dividido pela polarização política não arrefeceram, pelo contrário. Um levantamento recente realizado pelo DataFolha revela que a polarização atinge 74% dos brasileiros.

Diante deste cenário, um importante ponto de reflexão é o papel do Investimento Social Privado (ISP) na construção e sustentação de narrativas capazes de promover mudanças sociais, ampliar direitos e fortalecer a democracia. A aposta em uma comunicação estratégica tem despontado como um dos caminhos em meio a este contexto adverso. 

Adriane Primo, jornalista e coordenadora de comunicação do movimento Mulheres Negras Decidem, ressalta que, no ativismo, é necessário convergir muitas áreas de conhecimento do campo da Comunicação. “Disputar a atenção pública para avançar nas agendas de um projeto de país comprometido com a justiça social não é fácil, tendo em vista o contexto de intensa polarização que estamos vivendo. Não basta o domínio técnico se a mensagem for rasa ou se perder no caminho. Tem que ter coerência e cadência”, avalia.

Para Alane Reis, coordenadora do Programa de Comunicação do Odara – Instituto da Mulher Negra, uma comunicação de fato estratégica na luta por direitos pode ser caracterizada por uma atuação atenta ao contexto político social, e disposta a ecoar as agendas encampadas pelos movimentos sociais, a exemplo do fim da escala 6×1.

“Uma comunicação estratégica comprometida com o fortalecimento da informação, trata do contexto sem se descolar da história. Não é simples, mas é necessário para o público entender que as desigualdades são fruto de contextos anteriores e existem grupos com acúmulos históricos pela defesa dos direitos”, acrescenta. Nesse sentido, a ativista acredita que investir em linguagens simples e direta e formatos criativos fazem a diferença.

Polarização Política

O clima político de um país impacta não apenas o debate cultural, mas os rumos de diversos campos da economia, passando pelo varejo, mercado especulativo e até o investimento privado.

Paula Miraglia é cientista social e doutora em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP), foi co-fundadora do Nexo Jornal, onde atuou por oito anos. Ela, que também foi consultora do Banco Mundial e do Banco Interamericano para o Desenvolvimento, salienta que o terceiro setor precisa ter atenção ao discurso anti-democrático e, em momentos de instabilidade política, manter-se fiel ao que diz a lei e ao que mostram os dados apurados e produzidos pelo setor científico do país.

“O Brasil é uma democracia, e temos ritos democráticos resguardados por uma constituição. Por mais que haja polarização, temos valores previstos constitucionalmente. Além disso, o país possui uma produção científica de excelência, responsável por nos trazer uma série de evidências que sustentam vários aspectos do desenvolvimento social”, afirma.

Para 55,7% dos brasileiros, as fake news representam uma ameaça grave à democracia do país, de acordo com levantamento AtlasIntel/Bloomberg divulgado em 2025.

Na análise de Pedro Mattosinhos, head de Causas da Baselab, hoje não há priorização política nem qualificação do debate para a regulamentação das redes sociais no Brasil. Para ele, o espaço possível é o de letramento digital da população e de fortalecimento de veículos de imprensa como mediadores do acesso à informação de qualidade. 

“Isso inclui o jornalismo local, especialmente em desertos de notícias, e as agências de checagem, que seguem tendo um papel relevante na sustentação de um processo democrático que será marcado pelo uso intensivo de IA, deepfakes e desinformação em geral”, pontua. O especialista, no entanto, alerta para uma questão estrutural: a necessidade de um financiamento prévio, não restrito ao período eleitoral, mas contínuo, pensando em sustentabilidade financeira e desenvolvimento institucional desses agentes.

É tempo de diversificar

Converter todos esses elementos em prática a serviço do fortalecimento da democracia é desafiador em uma realidade onde a filantropia não tem visto a comunicação como prioridade.

Mídia e comunicação aparecem entre as áreas temáticas menos financiadas pelas organizações respondentes do Censo GIFE 2024-2025, apontada por 12% dos associados.

Fortalecer a democracia é um trabalho que exige tempo, circulação de conhecimento e pessoas qualificadas, o que demanda recurso, Adriane Primo. No caso do MND, a campanha Ministra Negra Já!, que questiona a ausência de uma ministra negra no Supremo Tribunal Federal (STF) em mais de 130 anos, é uma entre as diversas experiências de impacto onde a comunicação trabalha para reposicionar os temas na agenda pública. 

A campanha inspirou o estudo Mulheres Negras pela Transformação do Poder Judiciário, que traz o percurso do movimento negro nesse espaço e aponta as implicações da ausência da população negra nele. Assim como o guia Mensageiras Confiáveis, que mira o papel da imprensa na construção das narrativas que enquadram os símbolos que modelam a política institucional.

“Não dá para fazer uma campanha de comunicação offline sem pensar nos custos gerados para impressão de materiais e deslocamento de pessoas. Ou mesmo campanhas online, sem pensar na compra de serviços disponíveis em plataformas para designer e edição”, exemplifica. “O ISP é fundamental nessa engrenagem.” 

Iniciativas como a da Associação de Jornalismo Digital (Ajor), que em 2024 lançou um fundo independente voltado ao fortalecimento do jornalismo de interesse público (FAJ), contribuem para transformar esse cenário. Estruturado a partir de recursos filantrópicos, o FAJ apoia organizações dedicadas à cobertura de temas relevantes para o cotidiano da população, promovendo cidadania por meio da informação e fortalecendo o debate público e a participação social.

“Os recursos que o ISP traz para essas agendas viabiliza o trabalho de várias organizações, permitindo que essas instituições possam continuar de pé e inovando. Mas, é também uma forma do setor privado sinalizar que não só tem consciência sobre essa agenda e que está efetivamente engajado com a transformação da realidade”, comenta Paula Miraglia.

Engajamento esse que pode melhorar. Alane Reis pondera que o papel da filantropia neste momento é diversificar e amplificar ainda mais os recursos para grupos que fortalecem as narrativas pela defesa da democracia e estimulam a educação política e midiática para a população. 

“É fazer o investimento chegar onde há escassez de recursos, no Nordeste, por exemplo, apontada sempre como a região que historicamente ‘salva o Brasil’ nos períodos eleitorais, mas onde as mídias independentes, as organizações sociais que trabalham com educação política e midiática enfrentam enormes desafios para se manter.” 

A jornalista chama atenção ainda para a importância de fortalecer narrativas que apontem os erros históricos da própria democracia. “Quem são os grupos historicamente excluídos da política? Negros, indígenas, mulheres, comunidade LGBTQIA+. É necessário apoiar a consolidação de grupos que assegurem a narrativa sobre a importância da participação política destes setores para a democracia brasileira.” 

Trabalho que o Odara busca fazer, a partir de campanhas como Pretas no Poder. O Instituto também participa de um ecossistema de organizações que organiza coletivamente a plataforma Mais Negras na Política, um repositório de experiências com foco na promoção de candidaturas de mulheres negras.

Pedro Mattosinhos lembra de uma outra esfera que carece de atenção: o incentivo ao voto de forma consciente e informada, especialmente com jovens de até 29 anos comparecendo às urnas em nível abaixo do resto da população. “Cabe aos agentes do ISP apoiar o processo democrático e o pensamento crítico que aprofunda o poder de decisão da população.”

Como o investimento social privado pode fortalecer a comunicação estratégica

O financiamento filantrópico pode ampliar o apoio a iniciativas de jornalismo independente comprometidas com a cobertura de temas de interesse público, fortalecendo o acesso da população à informação qualificada e contribuindo para o debate democrático.

Direcionar recursos para mídias locais e regionais é uma estratégia central para reduzir desigualdades no acesso à informação, especialmente em territórios onde a cobertura jornalística é escassa.

Com o avanço de tecnologias como inteligência artificial e deepfakes, iniciativas de checagem de fatos e projetos dedicados à integridade da informação tornam-se ainda mais estratégicos para a qualidade do debate público.

Projetos que desenvolvem a capacidade crítica da população para compreender o ambiente informacional, identificar desinformação e participar do debate público são fundamentais para o fortalecimento da democracia.

Apoiar iniciativas de comunicação protagonizadas por grupos historicamente excluídos da política, como populações negras, indígenas, mulheres e pessoas LGBTQIA+, contribui para ampliar vozes no espaço público e fortalecer uma democracia mais diversa e inclusiva.

Entrevistados

Adriane Primo

jornalista e coordenadora de comunicação do movimento Mulheres Negras Decidem

Alane Reis

coordenadora do Programa de Comunicação do Odara – Instituto da Mulher Negra,

Paula Miraglia

cientista social e doutora em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP)

Pedro Mattosinhos

head de Causas da Baselab

Expediente

Natália Passafaro
COORDENAÇÃO DE COMUNICAÇÃO

Geovana Miranda
ANALISTA DE COMUNICAÇÃO

Afirmativa
REPORTAGEM/TEXTO

Marina Castilho
DESIGN & DESENVOLVIMENTO


Apoio institucional

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