Meninas de 0 a 17 anos são mais da metade das vítimas de abuso sexual no Brasil
Por: GIFE| Notícias| 09/03/2026
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A violência sexual contra meninas e mulheres continua a ser uma realidade cruel e difícil de combater no Brasil. Dados divulgados pela Rede de Observatórios da Segurança revelaram que em 2025 foram registrados 961 casos de estupro ou violência sexual, um aumento de 56,6% em relação ao ano anterior, quando foram contabilizados 602 casos.
Entre as vítimas, 543 (56,5%) eram meninas de 0 a 17 anos. Os dados foram produzidos a partir de um monitoramento diário das informações sobre violência que circularam nas mídias e redes sociais no ano de 2025 e foram oriundos de nove estados: Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo.
Além disso, a pesquisa analisou outros tipos de violência de gênero, como a agressão física e psicológica, cárcere privado, xingamentos, entre outras. A constatação é de que existe uma cultura de desprezo pelo corpo feminino que atravessa faixas etárias, vitimizando a dignidade da mulher desde a mais tenra idade.
Somente em 2024, o Hospital Pequeno Príncipe – especializado em acolher e tratar crianças e adolescentes vítimas de violência sexual – realizou 720 atendimentos por suspeita de abuso e maus-tratos. A violência sexual continua sendo predominante, representando 58% desses casos. A pouca idade das crianças atendidas na instituição também é alarmante, 66% delas estavam na primeira infância, ou seja, tinham até 6 anos.
A Dra. Maria Cristina Marcelo da Silveira, médica pediatra e supervisora do Pronto Atendimento do hospital, afirma que a maioria dos agressores são intrafamiliares, ou seja, são pessoas com laços parentais muito próximos à vítima. “Esses agressores não querem ser descobertos, então eles geralmente começam com uma conquista da criança: um beijo, um abraço, uma manipulação de órgãos genitais, e que muitas vezes, infelizmente, não deixa marcas para fazermos a confirmação. De qualquer maneira, a gente sempre confia no relato do menor.”
A pediatra explica que muitas vezes a denúncia parte de instituições próximas à criança, como a escola ou que observa na criança sinais que podem indicar uma possível violência.
“É muito importante que essas crianças e adolescentes cheguem ao serviço a partir da primeira suspeita, que geralmente vem do familiar, da escola ou da unidade básica de saúde, para realizar exame especializado, avaliação médica e perícia. Esse menor vai ser internado e começar o uso de bloqueadores das doenças sexualmente transmissíveis”, orienta.
Perigo Virtual
O ambiente digital é fértil e atraente para predadores que procurem vitimizar crianças e adolescentes. A falta do monitoramento de um adulto responsável e o fácil acesso à dispositivos digitais faz com que diferentes ambientes virtuais, como jogos online, redes sociais e até comentários em vídeos, sejam zonas perigosas para menores de idade.
Um outro relatório intitulado Disrupting Harm in Brazil: Enfrentando a violência sexual contra crianças facilitada pela tecnologia, produzido pela Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), foi lançado na última quarta-feira (4) e também joga luz sobre a violência sexual que se alastra pelo ambiente digital.
Em 66% dos relatos, a violência ocorreu em canais online. Redes sociais e aplicativos de mensagens instantâneas apareceram em 64% dos casos; e jogos online, em 12%. Entre os aplicativos citados pelas vítimas estão Instagram (59%) e WhatsApp (51%).
Em outro relatório divulgado no ano passado, a SaferNet Brasil – organização não governamental que defende e promove os direitos humanos na Internet – evidenciou o aprofundamento da violência sexual contra crianças e adolescentes no ambiente virtual. Segundo a instituição, entre 1º de janeiro e 31 de julho de 2025, o Canal Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos registrou 49.336 denúncias anônimas de abuso e exploração sexual infantil, correspondendo a 64% do total de notificações no período, que foi de 76.997 denúncias.