Observatório Nacional das Juventudes busca fortalecer políticas públicas baseadas em evidências
Por: GIFE| Notícias| 30/03/2026
Crédito: Istock
A Secretaria Nacional de Juventudes (SNJ) lança oficialmente na noite desta segunda-feira (30), em Brasília (DF), o Observatório Nacional das Juventudes (ONJ). O ONJ nasce como uma instância que visa articular informações e pesquisas, com objetivo de transformar a forma como as juventudes são vistas: enquanto sujeitos de direitos e protagonistas da mudança social.
Durante o lançamento, haverá a entrega de dois instrumentos essenciais para desenvolvimento do Observatório: o site com a Plataforma de Dados e a Rede de Pesquisadores/as.
Nesse sentido, Larissa Fontana, secretária executiva no Em Movimento, e coordenadora executiva no Centro de Estudos e Memória da Juventude, lembra que a produção de conhecimento é um elemento estruturante para qualificar Políticas Públicas de Juventude (PPJs). Ela chama atenção para o contexto brasileiro, marcado por profundas desigualdades e por lacunas históricas de dados desagregados.
“Quando evidências conseguem capturar essa diversidade das experiências juvenis, considerando raça, território, gênero e condição socioeconômica, elas permitem que o Estado avance de respostas genéricas para políticas mais precisas, capazes de enfrentar desigualdades estruturais de forma mais efetiva”, opina Larissa Fontana. A coordenadora vê no lançamento do ONJ um avanço importante.
No entanto, ressalta que o desafio central não está apenas na produção ou organização dessas informações, mas na sua capacidade de circular e influenciar decisões. “Nesse campo, as iniciativas da sociedade civil têm contribuído para aproximar dados das realidades vividas pelas juventudes e apoiar sua incorporação nos processos decisórios.”
Gessica Brenda, líder regional na Girl UP Brasil e conselheira municipal de Juventude, endossa essa análise. Para ela, boa parte das legislações brasileiras não consideram a complexidade que é ser um jovem negro. “A legislação brasileira como o Estatuto da Juventude e o Estatuto da Criança e do Adolescente, dentre outros instrumentos voltados para juventudes, não especificam artigos ou diretrizes contextualizadas para jovens negros”, avalia.
A ativista, que também preside o Coletivo de negritude Crespos/Cacheados de Caxias (MA), acredita que para alcançar isso ainda é necessário maior participação de jovens na formulação dessas políticas públicas. “O jovem negro precisa ser visto e entendido não apenas como recebedor de políticas públicas, mas como a melhor pessoa para dizer o que, como e porque ele precisa.”
Entre as expectativas da jovem para o Observatório, por exemplo, está a possibilidade de reunir, produzir e cobrar dados sobre violência policial contra jovens negros. Dados que, afirma, ainda são ocultados ou inconsistentes em muitos estados.
Atuação do ISP
A análise da atuação das organizações respondentes do Censo GIFE 2024-2025 revela maior presença junto aos públicos de jovens e adultos, sendo mais prevalente no grupo de pessoas de 18 a 29 anos, com 47% indicando ações específicas, seguido de perto pelos adolescentes de 15 a 17 anos (45%) e, depois, pela faixa infanto-juvenil de 6 a 14 anos (34%).
Um dos principais desafios do Investimento Social Privado (ISP) no campo das juventudes, de acordo com Larissa Fontana, é a dificuldade de fazer com que os recursos cheguem de forma estruturada e sustentável às iniciativas lideradas por jovens, especialmente negros e periféricos. Ela explica que muitas dessas iniciativas operam em contextos de alta vulnerabilidade, com grande potência de inovação, mas enfrentam uma série de barreiras.
“Além disso, ainda há uma fragmentação significativa dos investimentos, que muitas vezes se concentram em projetos pontuais, com baixa conexão entre si e pouco alinhamento a estratégias de longo prazo para garantir o desenvolvimento e fortalecimento das organizações”, argumenta.
Para atuar de maneira mais estratégica no fortalecimento das políticas públicas de juventude, sem substituir o papel do Estado, mas potencializando seus efeitos, a jovem aponta para a atuação do ISP no investimento não apenas na execução de projetos, mas principalmente naquilo que qualifica o sistema público.
“O ISP, ao definir seus parâmetros de monitoramento e avaliação de impacto, pode estimular a presença de jovens lideranças nos espaços de participação social. O ISP pode contribuir diretamente para isso ao apoiar a produção, sistematização e tradução de dados que dialoguem com o território, além de fomentar espaços de diálogo entre governo, sociedade civil e juventudes”, finaliza.