Bem Viver: o projeto de sociedade proposto pelas mulheres negras e comunidades tradicionais ao mundo  

Por: GIFE| Notícias| 21/07/2025

Mulheres negras do Centro-Oeste promovem concontro para organizar a Marcha das Mulheres Negras por Repação e Bem Viver (MMN2025), prevista para acontecer em 2025 Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

“O conhecimento que emerge de memórias antigas. Aprendizados fincados em práticas comunitárias. Bem Viver é um nome novo usado para conceitualizar a cosmovisãoo de comunidades tradicionais que se organizam a partir do coletivo. É um modo de vida que abarca a relação entre as pessoas, a natureza e o modelo econômico em sociedades que não tinham no capitalismo o único modo possível de se organizar.”

Foi assim que, no artigo intitulado “O Bem Viver e a radicalidade de sonhar outros mundos”, Juliana Gonçalves rascunhou uma definição para o projeto de sociedade proposto pelas mulheres negras e comunidades tradicionais ao mundo. Jornalista, ela defendeu em 2023 uma dissertação de mestrado pioneira na USP, onde apresenta o Bem Viver em narrativas de mulheres negras.  O conceito também aparece na obra “O bem viver: uma oportunidade de imaginar outros mundos”, de 2019, onde Alberto Acosta apresenta a filosofia inspirada nas cosmovisões indígenas da América Latina, especialmente de povos andinos como os quéchuas e aimaras. Proposto como crítica ao modelo ocidental de desenvolvimento, a ideia é uma relação harmoniosa entre seres humanos e natureza, priorizando a comunidade, a sustentabilidade e a plurinacionalidade em vez do crescimento econômico.

Neste 25 de Julho, Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, vale lembrar que há muito tempo essas mulheres desenham outros futuros possíveis, e já os vivem. “Nós, mulheres negras, construímos e comunicamos esse pacto não só com palavras, mas com corpo, prática e memória. Está no modo como nos organizamos: em roda, na partilha da comida, no cuidado com as crianças, no acolhimento afetivo e político”, explica Juliana Gonçalves.

Em sua análise, o Bem Viver também se revela na escuta e na retomada dos saberes ancestrais: nos terreiros, sambas, associações culturais, irmandades e coletivas políticas. “Isso não é apenas espiritualidade: é estratégia, letramento político.”

Esse horizonte político estava no centro das reivindicações da Marcha das Mulheres Negras Contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver, realizada em novembro de 2015, em Brasília (DF). Dez anos depois, as mulheres negras retornarão à capital federal, ainda mais numerosas, para marchar por reparação e, novamente, pelo Bem Viver.

“A sabedoria milenar que herdamos de nossas ancestrais se traduz na concepção do Bem Viver, que funda e constitui as novas concepções de gestão do coletivo e do individual; da natureza, política e da cultura, que estabelecem sentido e valor à nossa existência, calcados na utópica de viver e construir o mundo de todas(os) e para todas(os)”, diz a carta entregue à presidência da república e à sociedade brasileira na primeira Marcha.

Para Naira Leite, coordenadora executiva do Odara – Instituto da Mulher Negra e integrante do Comitê Impulsionador da Marcha das Mulheres Negras, as narrativas que embasam o Bem Viver têm sido estruturadas em contraponto ao projeto capitalista racista patriarcal cis-heteronormativo. 

“Mobilizam princípios de radicalidade, solidariedade e alianças mútuas propondo um pacto civilizatório que não seja centrado em contextos de guerras, desenvolvimentistas, de subalternização, do poder pelo poder e da desigualdade”, destaca a ativista. Ela observa o Bem Viver como mobilizador na construção de um projeto de liberdade e de transformação.

Dentro dessa perspectiva, Juliana Gonçalves lembra que o Bem Viver rompe com os binarismos coloniais, racistas, classistas e patriarcais. “Ele é memória porque ao revisitarmos nossas histórias, nos lembramos que resistimos a tudo. É prática quando entendemos que pode se relacionar com toda pauta: como o fim da escala 6×1, ou a taxação de bilionários. E é desejo de futuro – porque as mulheres negras projetam um mundo possível.”

Estamos preparadas(os)?

Questionada sobre se a sociedade brasileira, ou mesmo global, está pronta para abraçar esse novo modelo enraizado nos saberes ancestrais das comunidades tradicionais, Juliana Gonçalves devolve a pergunta: “as pessoas têm escolha? E se tem, quem são elas? Certamente não somos nós”. 

“Hoje, temos 55 bilionários no Brasil, que demorariam centenas de anos para gastar o que tem, enquanto há fome e morte no país. A pergunta não é se o mundo está pronto – mas se vai conseguir sobreviver sem escutar quem sempre soube viver em equilíbrio com a terra, com o outro e com o tempo”, completa.

Naiara Leite endossa a avaliação, e defende que o modelo de sociedade atual não é bom para ninguém. Ela é categórica ao afirmar que todas as pessoas precisam repensar sobre as tragédias do mundo que se estruturam sobre essas bases ideológicas. 

“As mulheres negras estão preparadas e de maneira generosa oferecendo aos diferentes pares a possibilidade de discutir, forjar e construir um horizonte ético e político do Bem Viver baseado na imaginação radical. Não existe futuro possível sem essa ruptura”, finaliza.


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