Os caminhos da filantropia rumo à COP30

Por: GIFE| GIFEnaCOP| 06/10/2025

Crédito: iStock

A COP30, que será sediada em Belém (PA) em 2025, chega em um momento decisivo para o mundo e para o Brasil. O tema climático deixou de ser uma pauta setorial para se tornar transversal, estruturante e urgente. Para o Investimento Social Privado (ISP), o desafio é claro: atuar de forma integrada, colaborativa e transformadora.

“A mudança do clima é transversal e o maior acelerador de pobreza e desigualdade”, afirma Ana Toni, secretária nacional de mudança do clima do Ministério do Meio Ambiente e diretora executiva da COP30. Para ela, ao lado da revolução digital, se tratam dos principais temas estruturantes da atualidade. “Quando eu comecei [a trabalhar] nesse tema, na Eco-92, a imagem que nós tínhamos do clima era um urso polar em um pedacinho de gelo. Hoje, você vê secas no Nordeste, inundação no Rio Grande do Sul, crise de produção de alimentos, idosos com problema de saúde por ondas de calor.”

Nos bastidores diplomáticos, Ana Toni chama atenção para informações cruciais: as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) estão sendo atualizadas para 2035, e mais de 100 países devem chegar à COP30 com compromissos assumidos. Além disso, novas ferramentas de financiamento estão em debate. “O tema da economia sustentável vai ser muito grande na nossa COP. Pela primeira vez, estamos trabalhando economia e clima em uma perspectiva em que um tem que ajudar o outro.”

Aprendizados da filantropia

Se o desafio é complexo, os aprendizados dos últimos anos mostram caminhos. Renata Piazzon, CEO do Instituto Arapyaú, destacou a virada de chave da narrativa em que saúde, educação, conectividade e produção local se articulam com a agenda climática. “A abertura da filantropia climática para atuar numa abordagem integrada de desenvolvimento é recente, mas muito importante.”

Thaís Ferraz, diretora programática do Instituto Clima e Sociedade, que retornou da Semana do Clima de Nova York, realizada na última semana de setembro, aponta a importância do trabalho em conjunto. 

“A gente não pode mais se dar ao luxo de ter esforços fragmentados. Já vivemos com os efeitos das mudanças climáticas. E se a gente não tivesse o Acordo de Paris, estaríamos em uma situação muito pior. Temos que olhar com criticidade essa descrença em relação aos processos multilaterais.”

Para ela, é importante mostrar o impacto que descuidar dessa agenda pode ter em números. Como a reconstrução do Rio Grande do Sul, que custou entre 20 e 30% do PIB do estado; ou as pesquisas que mostram que áreas de produção de alimentos próximas a florestas conservadas são mais produtivas.

Enquanto filantropia corporativa, Natália Cerri, gerente do Instituto Itaúsa, defende que é preciso olhar para o futuro a partir de uma economia melhor pro clima. “Nosso maior interesse é ter uma economia brasileira melhor, mais competitiva e produtiva. Precisamos atuar em um cenário de aumento de temperatura, perda de biodiversidade e degradação do meio ambiente”. Os caminhos possíveis, afirma, envolvem geração de evidências sobre impactos, articulação entre produtividade e sustentabilidade, e fortalecimento da sociedade civil.

“Por diversas questões geográficas e demográficas, o Brasil tem capacidade de ser uma grande potência nessa nova economia que está sendo imposta”, completa a gerente.

Para Jonathas Azevedo, diretor executivo da Rede Comuá, a ênfase no apoio direto a comunidades é indispensável. “A Comuá não é uma organização de clima nem pretende ser. Mas há um posicionamento político e uma produção de conhecimento muito forte dos nossos membros no tema.”

Nessa experiência, o diretor acumula duas certezas. A primeira é que o Brasil já tem estruturas eficientes para fazer o recurso chegar a quem precisa. A segunda é sobre a agenda climática ser, acima de tudo, uma agenda de direitos.

“A gente sempre está sob o risco de cair na armadilha de que clima é uma agenda super técnica e neutra. Mas não tem como enfrentar essa crise sem falar de como as mudanças climáticas impactam mais justamente os grupos que menos contribuem para seu agravamento. É urgente democratizar o acesso a recursos.”

Quem está bem ciente dessa realidade é Raimundo Magno, coordenador do Filhos do Quilombo. Há 25 anos atuando com comunidades quilombolas na Amazônia paraense, ele alerta sobre a impossibilidade de avançar enquanto não houver confiança entre os financiadores e os territórios apoiados. 

“Cada vez mais a gente a gente se assusta com a cobrança e o acirrar da burocratização dos processos. Aquilo que era para avançar e trazer acessos para as comunidades, têm piorado”, lamenta. Os desafios geográficos da região tornam o processo de prestação de contas uma tarefa hercúlea, onde a conectividade não existe, e o deslocamento para agências bancárias pode levar dias. “Essa forma de fazer filantropia nos adoece.”

A capacidade de flexibilidade da filantropia, para o ativista, também ainda é pouco explorada. “A filantropia, de forma alguma, deve ou pode substituir o papel do Estado. Mas tem coisas que a gente precisa repensar. Se é um direito humano, o Estado não vai fazer, [mas o investidor] tem condição de dar suporte, então vamos criar mecanismos.”

Nesse sentido, Érika Yamada, oficial de programa sênior na área de recursos naturais e justiça climática da Fundação Ford, compartilha um aprendizado acumulado pelos mais de 60 anos da organização em solo brasileiro.

“No Brasil, terras indígenas têm os menores índices de desmatamento, e territórios quilombolas concentram áreas prioritárias da conservação da biodiversidade. Para esses grupos, falar de justiça climática é falar de reparação histórica e justiça racial, mas eles recebem menos de 1% do financiamento climático direto.”

O legado da COP30 para o Brasil

As expectativas convergem: mais do que resultados pontuais, a COP30 precisa deixar um legado duradouro para o Brasil. Isso envolve fortalecer a sociedade civil, garantir recursos diretos para comunidades, ampliar mecanismos financeiros inovadores e enfrentar as barreiras de acesso ao financiamento climático.

Como lembra Leonardo Letelier, CEO da Sitawi, é preciso repensar a lógica dos apoios, respeitando a autonomia das comunidades: “Todo mundo quer apoiar, mas cada um tem sua própria agenda e se esquece que o território tem as suas. Então, estamos desenhando um fundo onde a tomada de decisão é toda da comunidade, e a governança também.”

Na Amazônia, Valcléia Lima, superintendente de Desenvolvimento Sustentável da Fundação Amazônia Sustentável, traz a perspectiva da ponta: investimentos precisam partir das necessidades locais, antes de pensar em cadeias produtivas. 

“O Brasil tem políticas públicas fantásticas, como o Luz para Todos, mas que nunca chegarão a alguns lugares. Como falar em desenvolver a Amazônia e valorizar os produtos da sociobiodiversidade se, na Amazônia profunda, ainda não conseguimos agregar valor ao extrativismo? Aí tem uma oportunidade para os filantropos.”

Entre desafios e oportunidades, a COP30 é também uma chance de redefinir o papel do terceiro setor. Como lembra um lema do GIFE: “Sem planeta, não tem filantropia”. A aposta, agora, é que Belém seja o marco de um engajamento mais profundo, sistêmico e justo, capaz de transformar o futuro da filantropia e do Brasil diante da crise climática.



A Semana GIFE no Clima da COP contou com apoio do Instituto Itaúsa e parceria do Instituto Arapyaú e Instituto Clima e Sociedade (iCS). Saiba mais.


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