Chuvas e calor extremos apontam para necessidade de cidades mais resilientes
Por: GIFE| Notícias| 27/03/2026
Tragédias como a de Juiz de Fora, em Minas Gerais, onde 65 pessoas morreram devido às fortes chuvas, são desoladoras, mas não chegam a surpreender. O planeta passa por uma acentuada crise climática, e o Brasil tem sido afetado fortemente pelo destempero climático ocasionado, sobretudo, pela ação humana e a ineficiência dos países em conter fatores que contribuem para o problema, como o uso de combustíveis fósseis.
Adaptar as cidades à essa nova realidade é uma tarefa difícil, mas urgente. Roberto Kishinami, físico pela Universidade de São Paulo (USP), especializado em energia e mudança do clima, e líder especialista estratégico sênior do Instituto Clima e Sociedade (iCS), explica que o principal desafio é reduzir o mais rápido possível as emissões de gases de efeito estufa (GEE), principalmente o dióxido de carbono e o metano. Sem essa primeira ação, a mudança extrema do clima só tende a piorar em todos os continentes.
“Ondas de calor, secas prolongadas, chuvas torrenciais (às vezes no mesmo lugar) só estão começando. À medida que a concentração de GEE na atmosfera aumentar, esses e outros eventos (tornados e ciclones, por exemplo) vão se tornar mais frequentes e intensos”, salienta o especialista.
A esperança para uma estabilização se torna cada vez mais distante. A capacidade de absorção dos oceanos, que hoje está entre 25% e 30% das emissões antrópicas de GEE, está diminuindo segundo estudos científicos mais recentes. O mesmo ocorre com as florestas tropicais e outros biomas.
Planejar as cidades de forma a incorporar a mudança do clima e reduzir ou eliminar as emissões de GEE devem ser prioridades. “Toda adaptação terá um ‘prazo de validade’ enquanto não alcançarmos estabilização da concentração de gases de efeito estufa, o que, por sua vez, só será possível quando as emissões de origem humana forem totalmente absorvidas por oceanos, florestas, solo e outros processos geoquímicos ou biológicos”, alerta o físico .
Desigualdade social e investimento
O componente econômico, político e social também tem grande peso quando se fala da crise climática. Populações vulnerabilizadas são as mais impactadas pelo aquecimento, mudanças climáticas e eventos extremos, que vitimizam principalmente zonas periféricas e mais pobres das áreas urbanas, o que explicita o racismo ambiental.
“Há injustiça quando, por exemplo, dividimos a emissão total do país pela população total (emissão per capita, tCO2/capita.ano). A desigualdade social concentra essas emissões em uma parcela pequena da população total, e é proporcional à renda, que sabemos é extremamente concentrada no Brasil quando comparado a outros países”, explica Roberto Kishinami.
O desafio, aponta, é alinhar poder público, setor privado e sociedade civil em torno de ações coerentes. O poder público capta recursos via todos os tipos de impostos (taxas, tarifas, entre outros) e faz isso sem incluir as emissões de gases de efeito estufa como componente relevante.
O terceiro setor brasileiro, por outro lado, pode aumentar seu engajamento no combate à crise climática, sem abandonar suas causas de origem, como explica Roberto Kishinami. Ele comenta que apesar dos impactos da mudança do clima já estarem presentes, as emissões globais ainda crescem, embora a taxas pequenas (+/- 1,5%/a.a). “Isso significará necessidade e oportunidade crescente de recursos a fundo perdido ao longo de todo século. Novos produtos de captação tem de ser elaborados”, conclui.