Cinemas de rua garantem acesso popular e impulsionam sucesso de produções nacionais

Por: GIFE| Notícias| 09/02/2026

Vista inferior da fachada do Cinema Glauber Rocha localizado na praça Castro Alves, cidade de Salvador, Brasil. Istock Foto

O bom momento vivido pelo cinema brasileiro, impulsionado pela repercussão de O Agente Secreto, que concorre a quatro indicações no Oscar, recoloca o audiovisual no centro do debate público. Mas, junto com o reconhecimento, surgem questões como: onde esse cinema encontra o público? E, sobretudo, quais espaços seguem disponíveis para que essa experiência seja coletiva, diversa e enraizada na vida das cidades?

O próprio diretor de O Agente Secreto já apresentou essa reflexão no documentário Retratos Fantasmas. Nele, Kleber Mendonça Filho revisita a rotina de ida ao cinema no centro do Recife (PE) ao longo do século XX. Ao mesmo tempo, o documentário registra o desaparecimento de muitos desses cinemas, transformados em farmácias, estacionamentos ou prédios comerciais, apagando parte da memória cultural das cidades.

Para Adhemar Oliveira, diretor de programação com mais de 40 anos de atuação, a distinção entre cinema de rua e de shopping não está apenas na localização, mas na possibilidade de curadoria e no papel social que esses espaços podem cumprir. Ele avalia que o cinema de rua oferece uma liberdade maior para experimentar modelos de programação e de relação com o público.

Na avaliação do exibidor, a perda desses espaços impacta diretamente o tecido urbano das cidades, já que cinemas costumam operar com margens reduzidas e acabam pressionados por um mercado imobiliário voltado à máxima rentabilidade. Sem imóveis próprios, muitos cinemas de rua ficam vulneráveis à valorização dos aluguéis e à mudança do perfil dos bairros onde estão inseridos.

Ao comentar o desempenho de Medida Provisória, de Lázaro Ramos, por exemplo, ele destacou o papel do cinema de rua na ampliação do acesso. Segundo Adhemar Oliveira, a distribuição do filme incluiu ingressos para comunidades negras e projetos sociais, o que ajudou a alcançar 500 mil espectadores no Brasil, com destaque para o Cine Augusta, que ele dirige. Com 32 anos de atividade, o espaço hoje conta com apoio da Petrobras

Para ele, o sucesso está ligado ao fato do cinema de rua permitir a entrada direta do público, sem os filtros sociais e comuns a outros espaços de consumo. “A gente sabe que a sociedade brasileira é preconceituosa, daí você vê 200 adolescentes irem assistir a um filme, se entram no shopping, dá um rebu.”

Financiamento é o maior desafio

Se, do ponto de vista simbólico, esses espaços seguem relevantes, a sustentabilidade financeira permanece como o maior desafio. Para a diretora do Audiovisual da Fundação Cultural do Estado da Bahia, Daiane Silva, as salas de cinema de rua funcionam a partir de modelos muito diversos, que vão desde exibições comerciais registradas na Agência Nacional do Cinema (Ancine), até espaços não comerciais, como a Sala Walter da Silveira, vinculada à Cinemateca da Bahia.

Segundo ela, salas públicas ou não comerciais costumam apostar em programações gratuitas, mostras temáticas, exibição de acervos históricos e cessão de pautas para festivais. Para Daiane Silva, esses espaços não concorrem com as grandes salas, mas ajudam a formar espectadores que depois circulam por outros cinemas.

Do ponto de vista das políticas públicas, ela destaca a importância de mecanismos de financiamento continuado para a manutenção das salas. A diretora lembra que, na Bahia, recursos da Lei Paulo Gustavo permitiram a criação de editais específicos voltados à manutenção e criação de espaços de exibição, mas ressalta que a sustentabilidade desses cinemas exige políticas permanentes, e não ações pontuais.

“Aqui a gente tem o exemplo do Cine Glauber Rocha. Ele funciona em um prédio cedido a partir de um contrato de cessão de um espaço do Estado, mas tem uma parceria com o Instituto Flavia Abubakir, que colabora com o financiamento desse cinema”, explica.

Para a diretora, modelos de contrato de gestão e termos de cooperação podem ser caminhos para fortalecer a relação entre poder público, iniciativa privada e salas de cinema, desde que respeitem o saber técnico dos exibidores e priorizem o retorno social.

Esse debate ganha ainda mais relevância em um cenário de retração do investimento social privado em cultura. Dados do Censo GIFE 2024–2025 mostram que os recursos destinados à cultura e artes sofreram uma queda de 30%, totalizando R$ 327 milhões. A redução pressiona diretamente projetos culturais e espaços que dependem desse tipo de apoio para sobreviver.


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