Como terreiros e filantropia podem atuar juntos pela justiça social

Por: GIFE| Notícias| 29/09/2025

Candomblé em Bom Jesus dos Pobres. Crédito: Istock

Os terreiros de axé desempenham um papel central na luta contra o racismo e na defesa da democracia brasileira. Mais do que espaços religiosos, eles são territórios de resistência, proteção comunitária e afirmação da identidade da população negra, historicamente alvo de violações. Esse protagonismo é evidenciado na pesquisa “Abre Caminhos: terreiros e filantropia em movimento pela justiça social”, lançada nesta sexta-feira (26), e desenvolvida por Mayana Nunes, pesquisadora do Programa Saberes da Rede Comuá e assessora de projetos do Fundo Brasil de Direitos Humanos.

Os dados confirmam a urgência da aliança entre filantropia e espaços de axé. O Painel de Dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos apontou que as denúncias de intolerância religiosa cresceram 80% no primeiro semestre de 2024, chegando a 1.227 casos. As religiões mais atingidas foram o Candomblé e a Umbanda, reafirmando um padrão de perseguição que atravessa séculos da história brasileira. 

Essas são informações evidenciadas pela pesquisa, que  nasceu de uma inquietação sobre como as religiões de matriz afro-brasileira e a filantropia poderiam atuar juntas no fortalecimento dos terreiros e no enfrentamento ao racismo religioso. O estudo também dialoga com a experiência da autora enquanto assessora de projetos do Fundo Brasil de Direitos Humanos, onde coordenou até 2024 o edital Enfrentando o Racismo a partir da Base. Esse percurso possibilitou revisitar práticas e aprendizados que ajudaram a estruturar o estudo. Os objetos de pesquisa são: Atracar, Templo de Umbanda Caboclo Flecheiro, Coletivo Iyakobiode, Instituto da Mulher Mãe Hilda Jitolú e o Kilombo Manzo, espaços que foram apoiados em 2022 pelo edital. 

Apesar das constantes violações, os terreiros no Brasil vêm desenvolvendo estratégias de resistência, proteção e fortalecimento comunitário. São iniciativas que vão desde a promoção da cultura e da memória afro-brasileira até o acolhimento de pessoas em situação de vulnerabilidade social.

“A Tenda de Umbanda Caboclo Flecheiro, em Olinda (PE), atua pela promoção da equidade racial por meio da educação, da cultura e da literatura focada em direitos humanos e no combate ao racismo religioso; o Instituto da Mulher Negra Mãe Hilda Jitolú, em Salvador (BA), busca fortalecer economicamente mulheres negras a partir de atividades de empreendedorismo e geração de renda”, menciona Mayana Nunes, que entre 2024 e 2025, retornou o diálogo com esses grupos para analisar de que maneira o apoio recebido havia se refletido em seus territórios.

Segundo a pesquisadora, os terreiros têm muito a ensinar sobre solidariedade, ancestralidade e cuidado coletivo, valores que podem inspirar práticas transformadoras na filantropia. A autora destacou que, em muitos casos, os terreiros enfrentam obstáculos para acessar recursos, seja pela alegação de que organizações religiosas não podem ser financiadas, seja pelas exigências burocráticas impostas na submissão de propostas às fundações.

“Trata-se de uma perspectiva colonialista, que não compreende o papel político e social que o complexo cultural e religioso de matriz africana possui junto às suas comunidades. Algo que aponto na pesquisa é que os terreiros são espaços de multiplicidade, e a filantropia deve reconhecê-los em sua singularidade, em suas vivências.”.

Perspetiva fomentada por Yasmin Morais, assessora de Programas da Rede Comuá. “A filantropia para a justiça social se propõe a apoiar ações que decolonizam o sistema e que propõe mudanças estruturais. Eu acho que reconhecer o papel dos povos de terreiro nisso é fundamental.”


Apoio institucional

Translate »