Da promessa ao investimento: o desafio global do financiamento climático na COP30

Em meio à urgência climática e aos compromissos globais, a filantropia brasileira se movimenta para destravar recursos e fortalecer quem protege a biodiversidade.

Enquanto você lê esses parágrafos, lideranças políticas, Organizações da Sociedade Civil (OSCs), cientistas, setor privado e ativistas de dezenas de países se reúnem em encontros e negociações de mais uma Conferência das Nações Unidas sobre o Clima.

A COP30, primeira a ser realizada na Amazônia, teve início na última segunda-feira (10), em Belém (PA). Redução de emissões de gases de efeito estufa; adaptação às mudanças climáticas; tecnologias de energia renovável e soluções de baixo carbono; preservação de florestas e biodiversidade; justiça climática e impactos sociais das mudanças climáticas; e financiamento climático para países em desenvolvimento são os temas postos à mesa desses líderes.

Sobre esta última, as expectativas são elevadas, e não é de agora. O governo brasileiro, por exemplo, cobra o cumprimento das promessas de financiamento climático feitas pelos países ricos aos em desenvolvimento desde a COP27.

No entanto, dados recentes da Oxfam sobre financiamento climático público e internacional mostram que dos US$ 4,2 bilhões declarados por fontes bilaterais ou multilaterais para o Brasil em 2021 e 2022, o valor considerado como efetiva ajuda climática não chega a US$ 1 bilhão. Isso representa menos de 24% do total informado pelos países ricos e pelas instituições multilaterais, que são abastecidas com recursos das nações desenvolvidas.

Para Pedro Bocca, coordenador de Relações Internacionais e Políticas Públicas no GIFE, esses dados não surpreendem. E mais: em comparação ao que outros países têm recebido de ajuda climática, o número ainda representa uma proporção um pouco maior, especialmente pelo país abrigar a maior parte da Amazônia, e outros biomas ameaçados. Mesmo assim, afirma, o montante ainda é insuficiente.

Isso porque o chamado Mapa do Caminho Baku-Belém, lançado na COP29, prevê que até 2035 os países em desenvolvimento têm que receber dos parceiros internacionais US$ 1,3 trilhão para o combate às mudanças climáticas, para conseguir minimamente conter o avanço do aquecimento global como está agora.

“Isso significa em média US$ 130 bilhões por ano. Ou seja, esse US$ 1 bilhão que vem pro Brasil ainda é muito pouco. O que é importante colocar aqui é a necessidade de todo mundo nesse momento dar um pouquinho mais”, explica Pedro Bocca. 

No caso do terceiro setor, um estudo da World Climate Foundation apontou em 2024 que apenas 2% do recurso da filantropia global vai para mudanças climáticas.

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No Brasil, cerca de 6% do volume de recursos da filantropia são investidos na agenda climática: três vezes mais que a média mundial, aponta o recém lançado Panorama de Dados Censo GIFE 2024-2025 sobre Filantropia e Agenda Climática.

Renata Piazzon, CEO do Instituto Arapyaú e conselheira do GIFE, explica que, além dos modelos tradicionais de investimento, o campo climático tem demandado mecanismos mais catalíticos. Nesse contexto, a filantropia tem exercido papel estratégico ao viabilizar fundos híbridos e iniciativas pré-competitivas, especialmente em agendas como a restauração florestal.

“É esse capital paciente que vai destravar o capital comercial, e a gente vem descobrindo, assim, o papel da filantropia entrando primeiro para reduzir alguns riscos.”

RENATA PIAZZON, CEO do Instituto Arapyaú e conselheira do GIFE

Para Ana Toni, secretária nacional de mudança do clima do Ministério do Meio Ambiente e diretora executiva da COP30, a Conferência deve marcar um avanço importante na conexão entre economia e clima, com um debate central sobre o financiamento global da transição ecológica. “Pela primeira vez, estamos trabalhando economia e clima em uma perspectiva em que um tem que ajudar o outro”, afirma. 

Ela explica que o evento vai discutir formas de mobilizar US$ 1,3 trilhão para países em desenvolvimento, combinando aportes diretos de nações ricas com mudanças estruturais no sistema financeiro internacional, como trocas de dívida por ações climáticas e criação de novos impostos globais voltados à justiça climática.

“A gente está num momento em que os Estados doam cada vez menos, especialmente agora com a saída dos EUA de todos os acordos climáticos. Então quem está disposto a doar precisa fazer um pouquinho mais nesse momento. Porque se a gente não salva o planeta agora, todo trabalho que a gente faz aqui vai ser em vão”, completa Pedro Bocca.

Caminhos de esperança na Amazônia

Enquanto grandes potências econômicas e setores promissores ainda falham em cumprir as promessas de investimento para conter a crise climática, exemplos locais mostram que o financiamento direcionado e consciente pode gerar resultados concretos. A atuação da Fundação Amazônia Sustentável (FAS) é uma dessas demonstrações, que se materializa em sua missão que tem como objetivo promover a conservação da Amazônia, valorizando a floresta em pé, sua biodiversidade e o bem-estar das comunidades ribeirinhas por meio do incentivo ao desenvolvimento sustentável. 

A instituição estrutura sua atuação na lógica dos serviços ambientais e na escuta ativa das comunidades da região. “A gente já vem numa preocupação em entender quais são as necessidades e aquilo que mais impacta a vida das comunidades”, explica Valcléia Lima, superintendente adjunta da FAS. Com base em pesquisas e diagnósticos feitos ao longo dos anos, a fundação direciona recursos para ações de adaptação às mudanças climáticas, atendendo às demandas locais por infraestrutura e resiliência ambiental.

Valcléia Lima menciona projetos como o “Água + Acesso”, iniciativa realizada em parceria com a Fundación Avina e Coca-Cola Brasil, que leva água potável às populações necessitadas, promovendo saúde e bem-estar. De acordo com dados divulgados no site da fundação, 1,6 mil pessoas no estado do Amazonas que sofreram os impactos da seca histórica de 2023 foram beneficiadas pela iniciativa. 

“A gente vê, por exemplo, nos projetos de adaptação que as lideranças estão fazendo, água é  uma das coisas que mais se destaca, a outra é à energia renovável. A gente entende que as comunidades quando ficam isoladas durante a seca, é necessário ter água. Mas se não tiver energia, não tem como captar água do rio, do poço.”

Jonathas Azevedo comenta que a Rede Comuá tem fortalecido o apoio direto à sociedade civil, canalizando recursos para iniciativas de base em diferentes biomas do país. Segundo ele, o levantamento mais recente mostra o alcance e a diversidade das ações promovidas por organizações integrantes da rede.

“Entre 2023 e 2024, nossos membros doaram mais de R$ 200 milhões diretamente a comunidades indígenas, quilombolas e periféricas, além de populações LGBTQIAPN+, alcançando quase meio milhão de pessoas em todos os biomas brasileiros. Boa parte dessas iniciativas olha para temas e territórios muitas vezes negligenciados pelo campo do financiamento climático”, pondera o diretor executivo.

Infelizmente esse modelo de atuação não é uma regra. Diversas organizações já alertaram que menos de 1% do financiamento climático global chega diretamente a povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, justamente aqueles que mais conservam biodiversidade e território.

“A COP30 ser na Amazônia ajuda a potencializar esse debate, a envolver organizações locais e a tirar um pouco da concentração da discussão de clima para organizações do Sul e Sudeste. É fundamental que o recurso chegue aos territórios. Ao fortalecer essas comunidades, estamos tendo uma ação direta de enfrentamento às mudanças climáticas.”

PEDRO BOCCA, coordenador de Relações Internacionais e Políticas Públicas no GIFE

Pedro lembra que, por mais indispensável que seja destinar recursos para a redução de emissão de gases de efeito estufa, a mitigação e adaptação climática são elementos centrais, e nesse sentido os modos de vida das comunidades tradicionais têm muito a ensinar. 

Trata-se de uma área que tem ganhado cada vez mais relevância frente aos eventos climáticos extremos. De acordo com o Panorama do Financiamento Climático no Brasil, US$ 208 milhões é o valor do financiamento médio anual para mitigação. Sendo que 74% desse recurso vem de apenas 10 doadores.

Filantropia em cena

Ao articular soluções integradas, como energia solar para captação e armazenamento de água, beneficiamento de produtos regionais e apoio à geração de renda, a FAS mostra que modelos sustentáveis são viáveis e podem transformar a realidade local. Para Valcléia Lima o Investimento Social Privado (ISP) é uma peça-chave nessa engrenagem. Ela destaca que muitas vezes quem cria as políticas públicas  “não faz essa escuta ativa nas comunidades” e que chegar a territórios remotos é caro, o que reforça a importância da participação do ISP.

A mais recente edição do Censo GIFE – a ser lançada em dezembro – aponta que, ao todo, 63 organizações associadas ao GIFE declararam executar ou financiar iniciativas relacionadas à agenda climática em 2024, correspondendo a 46% do total de respondentes da pesquisa.

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foram mobilizados pelos associados do GIFE em ações voltadas à agenda climática, seja de forma direta ou em intersecção com outras áreas, como saúde, cultura, educação e apoio a organizações da sociedade civil.

Esses são alguns dos dados inéditos apresentados pelo GIFE durante a COP30, além das informações compiladas pelo relatório de monitoramento dos dois anos de implementação do Compromisso Brasileiro da Filantropia sobre Mudanças Climáticas, assinado em 2023 durante a COP28.

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das organizações signatárias do Compromisso Brasileiro da Filantropia sobre Mudanças Climáticas já percebem algum resultado decorrente a adesão ao compromisso, indicando que o tema tem se fortalecido nas agendas internas e nas práticas de gestão.

Entre os pilares considerados mais desafiadores, destacam-se Fundos e Ativos Financeiros, Operações e Alocação de Recursos. Por outro lado, os pilares vistos como de maior potencial de impacto são Articulação e Advocacy e Alocação de Recursos, evidenciando o papel estratégico das organizações na mobilização de redes e na incidência política pela pauta climática.

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organizações receberam doações para projetos climáticos no Brasil, entre 2019 e 2023, sendo que dois terços delas arrecadaram menos de US$ 50 mil por ano, aponta o Panorama do Financiamento Climático no Brasil, produzido pelo iCS e pelo GIFE, com apoio da ClimateWorks Foundation.

O novo Censo GIFE aponta ainda os diferentes papéis das fundações na agenda climática. As organizações independentes têm se sobressaído ao traduzir o debate climático em ações concretas junto às comunidades, embora enfrentem desafios relacionados à estabilidade de recursos. As fundações empresariais avançam na integração do tema em suas estratégias e governanças, aproveitando sua estrutura e influência para promover transformações duradouras. Já as instituições familiares se fortalecem como espaços de experimentação e aprendizado, com foco em educação, comunicação e parcerias com fundos e organizações de base.

As informações reunidas no relatório revelam quais os gargalos que cada tipo de filantropia tem para incorporar a agenda climática dentro de seus programas, operações e de compressão de mundo. E, principalmente, vai identificar boas práticas para inspirar outras filantropias. A expectativa de Pedro Bocca é que a Conferência impulsione ainda mais o Compromisso, que ele já considera um sucesso até aqui.

“Ainda estamos no começo da missão. A questão do clima não é individual e ninguém vai ganhar uma medalha de honra ao mérito por atuar mais ou menos. Se todo mundo atuar junto, o que a gente pode ganhar é um mundo melhor.”

Entrevistados

Ana Toni

Secretária nacional de mudança do clima do Ministério do Meio Ambiente

Jonathas Azevedo

Rede Comuá

Pedro Bocca

GIFE

Renata Piazzon

CEO do Instituto Arapyaú

Valcléia Lima

Superintendente adjunta da FAS

Expediente

Natália Passafaro
COORDENAÇÃO DE COMUNICAÇÃO

Geovana Miranda
ANALISTA DE COMUNICAÇÃO

Afirmativa
REPORTAGEM/TEXTO

Marina Castilho
DESIGN & DESENVOLVIMENTO


Apoio institucional

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