Em meio ao crescimento do setor turístico, especialistas e lideranças comunitárias discutem como o modelo de base comunitária pode gerar renda, valorizar culturas tradicionais e enfrentar desafios para um desenvolvimento mais inclusivo nos territórios brasileiros.
O turismo é um dos principais pilares da economia brasileira. De acordo com estimativas da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o setor teve um volume de receitas recorde na última alta temporada, com movimentação de cerca de R$ 218 bilhões, entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026.
Apesar de ser uma atividade econômica fundamental, sem um alinhamento sustentável o turismo pode resultar no esgotamento dos recursos naturais, na descaracterização cultural e no desequilíbrio de comunidades locais.
Cazumbada, Baixada Maranhense
Pensando em como conciliar o enfrentamento a esses desafios com a atividade turística, surge o modelo de turismo de base comunitária ou turismo comunitário, onde as atividades são geridas pelos próprios moradores das comunidades – indígenas, quilombolas, ribeirinhos – e prioriza a preservação do bioma e a valorização da cultura e das tradições locais.
Para Bruna Cantanhêde, gerente de programas e superintendente do Instituto Baixada Maranhense, região formada por 21 municípios entre o litoral e o extremo interno do Maranhão, o turismo de base comunitária é uma ferramenta para tentar mudar perspectivas e trazer visibilidade para o que não necessariamente está nos pontos turísticos tradicionais do estado.
“É essa visão de redistribuir o protagonismo, valorizar outras formas de vida, outras formas de existir. Para além da perspectiva de resistência, não é isso. É de existência mesmo, de pessoas que estão no território de forma digna e que sustentam aquilo dali”, explica.
Mais do que a preservação das comunidades visitadas, Valcleia Lima, superintendente geral adjunta do Fundo Amazônia Sustentável (FAS), acredita que o turismo comunitário impacta positivamente na experiência do turista, proporcionando a troca e compartilhamento de saberes.
“Porque não é só uma vivência de você chegar aqui e ter uma boa cama para dormir, uma boa comida. Você vive cultura, o dia-a-dia, a história, a tradição, a sabedoria ancestral, uma série de questões.”
Roberta Abreu, gerente Executiva do Instituto Bancorbrás, que promove iniciativas voltadas ao apoio territorial de comunidades periféricas e indígenas em diferentes regiões do país, afirma que o ponto de partida é sempre a escuta e diálogo com quem já atua nos territórios. “Esse processo acontece, principalmente, por meio de parcerias com organizações locais, empreendedores sociais e negócios de impacto, que conhecem de perto as demandas e as dinâmicas de cada região.”
Pedrina Belém do Rosário, graduada em Relações Internacionais pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, é coordenadora de Mulheres da Associação Comunitária do Jatimane – (ACJ), do Quilombo Jatimane, em Nilo Peçanha, baixo sul da Bahia. Para ela, o território não deve ser tratado como um produto, por isso o turismo realizado na região precisa de limites, regras e princípios bem definidos pela própria comunidade.
“Não é um turismo de exploração, mas de troca. também temos o cuidado de não expor saberes sagrados ou práticas que não devem ser compartilhadas. Além disso, o turismo é pensado de forma integrada com a preservação ambiental, incentivando práticas sustentáveis e a conscientização dos visitantes sobre a importância do nosso território.”
Quilombo Jatimane
A Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Negro, onde atua a FAS, é uma unidade de conservação que abriga 19 comunidades, e tem como principal atividade a exploração de madeira. Valcleia Lima explica que a instituição se aproximou da comunidade local a partir do diálogo, na tentativa de mudar o foco da fonte de renda – ligada especialmente ao extrativismo – dos moradores para o potencial turístico da região.
“A RDS do Rio Negro, tem uma beleza cênica fantástica, mas a atividade deles não estava direcionada para isso. Então, já que estamos falando de diminuir o desmatamento, a gente precisa focar em ações que diminuam esse índice”. A superintendente conta que com o apoio dos recursos do Fundo Amazônia, a infraestrutura das comunidades foi melhorada para fazer atividade voltada para o turismo.
“Começamos, em 2012, a construir uma pousada comunitária, um restaurante, só que a gente passou por um processo de formação e qualificação dessas pessoas que têm o perfil extrativista, mas não tinham um perfil empreendedor tão aflorado. Isso requer tempo, e leva um período que é de médio a longo prazo”, explica.
Valcleia Lima salienta ainda que essa forma de fazer turismo é intrínseca à preservação, já que dialoga diretamente com os territórios. “O turismo de base comunitária já preconiza isso, já traz esse olhar de que não é volume, não é escala, mas é uma vivência diferenciada.”
Benedito da Paixão Santos, conhecido como “Bio”, é pescador na comunidade da Ilha de Boipeba, no município de Cairu (BA), e dono da cabana Flor do Caribe. Ele relata que iniciou sua atuação no turismo recebendo visitantes durante a alta temporada e, com o tempo, esse modelo tornou-se um dos pilares da atividade na região.
“Eu começava a levar e receber essas pessoas, Boipeba não tinha pousada, não tinha restaurante, então, com o avanço do turismo, o que a gente fazia? Levava as pessoas para comer na casa dos pescadores.”
Valcleia Lima lembra que o crescimento da RDS do Rio Negro só foi possível graças ao investimento em processos de formação dos moradores. “Não teria sido possível sem todo esse processo de formação que nós fizemos para essas pessoas, muitos deles foram visitar outros projetos. É aí que a gente entra nessa seara, de apoiar as comunidades para fazer o turismo de base comunitária, que, por sinal, é uma atividade que agrega muitos outros segmentos.”
Esse processo é algo que o pescador Bio, de Boipeba, sente falta na experiência da ilha. “A gente poderia ter um intercâmbio, uma troca de conhecimento, onde esse turismo já foi plantado. Porque eu sempre falo que o turismo de base comunitária é o mais rico que existe em qualquer lugar. É um turismo que colhe hoje e tem reserva para amanhã”, reflete o pescador.
Quilombo Jatimane
O caminho para fortalecer esses territórios, seja através da preservação ambiental ou pela qualificação dos moradores, muitas vezes passa pelo Investimento Social Privado (ISP).
Bruna Cantanhêde pontua que esta troca entre organizações e comunidades fortalece tanto os territórios quanto os empreendedores. “É enriquecer o nosso território com o que eles têm para nos ensinar, nos fortalecer, nos mostrar.”
O programa Transformando Territórios, do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), atua na Baixada Maranhense e foi criado para fortalecer organizações e fundações comunitárias no Brasil. De acordo com Bruna, o apoio do programa faz toda diferença para pensar estratégias que, por vezes, não tinham sido consideradas anteriormente. “Fazemos intercâmbios entre organizações, conhecemos pessoas, nos tornamos parte de um organismo que tem como objetivo comum transferir o centro das decisões para o território.”
Pedrina Belém do Rosário, do Quilombo Jatimane, pontua que a falta de investimento contínuo em projetos de longo prazo são um dos principais desafios para a manutenção de comunidades tradicionais.
“Também temos desafios relacionados à infraestrutura básica do território, como acesso à água de qualidade e saneamento. Além disso, existe a necessidade de formação continuada da comunidade. E, claro, o desafio constante de proteger o território diante de interesses externos que nem sempre respeitam nossa forma de vida.”
A garantia de uma infraestrutura adequada para esses territórios é justamente um dos pontos apontados por Valcleia Lima. Para ela, a filantropia tem a oportunidade de olhar para o turismo de base comunitária no presente, com foco nos resultados de longo prazo.
“A filantropia poderia olhar para esse nicho com um pouco mais de atenção, vendo nisso uma oportunidade futura, mas que o investimento precisa ser agora no presente. Se a gente quer manter os filhos dos nossos empreendedores no território, a gente precisa levar a infraestrutura.”
Seguindo a mesma linha, Roberta Abreu explica que o ISP pode contribuir apoiando a estruturação de destinos, fortalecendo negócios locais e ampliando o acesso à capacitação, atuando como um articulador, conectando diferentes atores e incentivando ações mais integradas nos territórios.
“Ainda existe espaço para ampliar o olhar do ISP para o turismo. Quando esse movimento acontece, os resultados aparecem em geração de renda, preservação cultural e desenvolvimento local. E, olhando para frente, a nossa expectativa é que o turismo seja cada vez mais reconhecido como um caminho concreto para promover desenvolvimento, respeitando os territórios e valorizando quem faz parte deles”, finaliza.
Apesar de já atuar em frentes diretamente ligadas ao turismo, como cultura, conservação ambiental e geração de renda, o ISP no Brasil ainda não enxerga o setor como estratégico. É o que revela o relatório Investimento social privado em turismo no Brasil: impactos, motivações e desafios, lançado em 2024.
O estudo aponta um caminho promissor: quando estruturado de forma intencional, o turismo pode impulsionar o desenvolvimento territorial sustentável, combinando inclusão social, preservação ambiental e dinamização econômica. Nesse cenário, o ISP aparece como um agente-chave, seja no fortalecimento de políticas públicas locais, no apoio a iniciativas municipais ou na indução de boas práticas que integrem conservação, cultura e geração de oportunidades.
Cazumbada, Baixada Maranhense
Natália Passafaro
COORDENAÇÃO DE COMUNICAÇÃO
Geovana Miranda
ANALISTA DE COMUNICAÇÃO
Afirmativa
REPORTAGEM/TEXTO
Marina Castilho
DESIGN & DESENVOLVIMENTO