Feiras literárias crescem no Brasil em meio à queda recorde de leitores
Por: Natália Passafaro| Notícias| 01/09/2025
Foto: Istock
Nos últimos quatro anos, o Brasil teve uma redução de 6,7 milhões de leitores. É o que mostra a edição 2024 da Pesquisa Retratos da Leitura que, pela primeira vez, registrou uma proporção de não-leitores maior do que a de leitores na população: 53% não leram nem parte de um livro nos três meses anteriores à pesquisa.
A falta de tempo foi o principal fator a justificar esses números tanto entre os leitores (46%), quanto entre os não leitores (34%). Para o segundo grupo, no entanto, não gostar de ler também aparece como um fator importante, representando 28% dos entrevistados.
Mas esse cenário também pode ser interpretado de forma multisetorial, conforme aponta Dayse Sacramento, CEO da Editora Diálogos Insubmissos, voltada à literatura negra de mulheres. “Nas escolas públicas, muitas famílias não têm condições de comprar livros e, em muitas comunidades, nem sequer existem bibliotecas ativas. Além disso, programas de distribuição de livros e fortalecimento das bibliotecas escolares foram enfraquecidos.”
A imersão das crianças e jovens em conteúdos digitais curtos e rápidos, que afetam a capacidade de atenção, e o fato de o livro ainda ser tratado como marcador de distinção social, em vez de bem cultural universal, são outros pontos importantes, segundo a especialista.
Em contrapartida a esse cenário, as feiras literárias têm crescido cada vez mais no país. Só nos últimos dois meses, alguns dos destaques foram a 19ª Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, a 23ª FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty, a 10ª Flipelô – Festa Literária Internacional do Pelourinho, entre outras.
Muitas delas contam com o apoio do Investimento Social Privado (ISP), como faz o Itaú Social. “Acreditamos que essas feiras têm um poder gigantesco de influenciar as pessoas pelo hábito da leitura. Tem aí um exercício importante a ser feito para trazer a leitura como uma experiência de fruição, que traz enormes benefícios para a saúde mental’”, comenta Ana de Fátima Sousa, gerente executiva de Comunicação Institucional e Estratégica na Fundação Itaú.
Além do apoio às feiras literárias, a fundação atua através do programa Leia com uma Criança, fazendo uma curadoria de livros e os distribuindo nas regiões que mais precisam, em parceria com o Ministério da Educação.
“Cabe à sociedade fazer uma grande campanha de como nos tornamos pessoas e profissionais melhores quando acessamos a imaginação que a literatura promove”, afirma Ana de Fátima Sousa.
Dayse Sacramento também considera essa efervescência positiva, mas olha com criticidade. Doutoranda em Literatura e Cultura, ela explica que as feiras literárias atendem a uma dinâmica de mercado, onde o livro é tratado como produto e o foco nem sempre está na democratização da leitura. Ela chama atenção para as curadorias, que não costumam ser compostas por pessoas negras, mulheres, indígenas ou de territórios periféricos, reforçando desigualdades históricas e explorando pouco a diversidade literária do país.
Para ela, com iniciativas independentes que conseguem tensionar esses espaços, – como a Casa Insubmissa de Mulheres Negras, da qual é idealizadora – é possível ver transformação. “Porque nesses momentos a literatura se apresenta como vivência, pertencimento e reconhecimento, e não apenas como mercadoria”, completa.