Pouco financiada, comunicação indígena é estratégica para justiça climática
Por: GIFE| Notícias| 17/04/2026
indígenas de todo país que participam do Acampamento Terra Livre - ATL 2026. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
No mês em que se celebra o Dia dos Povos Originários (dia 19 de abril), lideranças indígenas seguem na linha de frente da defesa de seus territórios, culturas e direitos. Nesse contexto, a comunicação indígena se consolida como ferramenta central para dar visibilidade às pautas, e produzir informação a partir dos próprios territórios e experiências.
Apesar dessa relevância, a agenda ainda recebe pouca atenção do Investimento Social Privado (ISP). Dados do Censo GIFE 2024/2025 mostram que iniciativas em mídia e comunicação representam 12% das áreas de atuação.
Para discutir o papel da comunicação indígena e os entraves para seu fortalecimento, o redeGIFE ouviu a jornalista indígena Itocovoty Pataxó, filha dos povos Pataxó HãHã-Hãe e Terena, articuladora do Engajamundo e fundadora de um projeto fotográfico voltado à valorização dos povos originários.
A comunicação indígena tem se fortalecido nos últimos anos, com a ampliação de iniciativas próprias e o aumento de comunicadores indígenas atuando em diferentes territórios e plataformas. Na sua avaliação, o que diferencia a comunicação indígena de outras experiências de mídia independente no Brasil?
A comunicação indígena nasce do território, da vivência e da coletividade dos nossos povos. Não se trata apenas de informar, mas de defender a vida, a cultura e os direitos. Esse é o nosso principal diferencial, comunicamos a partir de quem vive as realidades que estão sendo narradas.
Hoje, ela tem um papel estratégico na disputa de narrativas, especialmente em temas como território, meio ambiente e direitos humanos. Ao enfrentar a desinformação e afirmar outras formas de ver o mundo, essa comunicação não apenas amplia vozes, mas reposiciona os povos indígenas como sujeitos políticos contemporâneos.
Que tipos de invisibilização ou distorção ainda marcam a cobertura da mídia tradicional sobre povos indígenas? E de que maneira a produção de conteúdo feita por comunicadores indígenas contribui para transformar essa lógica histórica de representação?
Ainda é muito comum que a mídia tradicional nos retrate a partir de uma lógica que ou invisibiliza os povos indígenas ou os enquadra em estereótipos. É comum que sejamos retratados como figuras do passado, desconectadas da contemporaneidade, ou que nossas existências apareçam apenas em contextos de conflito, violência ou crise. Isso reduz a complexidade dos povos indígenas e reforça uma visão que nega nossa diversidade, nossas múltiplas identidades e nossas formas atuais de organização.
A comunicação feita por indígenas rompe com essa lógica ao trazer nossas próprias vozes e histórias. Quando somos nós que contamos nossas histórias, mostramos que somos povos diversos, presentes, conectados e em constante transformação. É uma forma de enfrentar práticas coloniais que ainda persistem e de disputar o imaginário da sociedade.
Diferentes iniciativas de comunicação indígena têm se consolidado em diversos territórios, muitas vezes de forma autônoma e com forte vínculo comunitário. Quais são hoje os principais desafios para garantir a sustentabilidade dessas iniciativas no país?
Um dos principais desafios é o acesso a financiamento contínuo e estruturante. Muitas iniciativas de comunicação indígena são de base territorial, operam com poucos recursos e enfrentam dificuldades até mesmo para garantir equipamentos básicos e conectividade. Quando conseguimos apoio de universidades ou parceiros, isso faz muita diferença.
Além disso, há barreiras nos próprios processos de acesso a recursos. Editais muitas vezes utilizam uma linguagem técnica e inacessível, o que dificulta a participação de comunicadores indígenas. Isso acaba funcionando como uma forma indireta de exclusão e reproduzindo desigualdades, dificultando o acesso a oportunidades que deveriam ser mais amplas e inclusivas.
O investimento em comunicação ainda é pouco priorizado pela filantropia. Quais são os impactos para as narrativas indígenas e o que poderia avançar nesse cenário?
A falta de investimento impacta diretamente o fortalecimento das nossas narrativas. Sem apoio, fica muito mais difícil ampliar a incidência política e garantir que nossas vozes cheguem a mais espaços. É fundamental que a comunicação seja reconhecida como estratégica pela filantropia, com financiamento direto, contínuo e que respeite a autonomia dos povos indígenas, às suas culturas, línguas e formas de organização. Nós já fazemos comunicação há muito tempo. O que falta é reconhecimento e apoio para que esse trabalho possa se expandir.