Retração de recursos internacionais desafia financiamento das organizações da sociedade civil

Por: GIFE| Notícias| 16/03/2026

As Organizações da Sociedade Civil (OSCs) no Brasil entraram em 2026 diante de um cenário mais desafiador para a captação de recursos. Cortes recentes no financiamento internacional, especialmente dos Estados Unidos, têm provocado, desde 2025, uma retração no fluxo de recursos destinados especialmente a projetos de desenvolvimento, direitos humanos e meio ambiente.

No país, onde muitas iniciativas ainda dependem em alguma medida da cooperação internacional, a mudança no cenário global se soma a fatores internos, como o calendário eleitoral e a crescente disputa por recursos filantrópicos.

Para Flavia Lang, presidente do conselho deliberativo da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR), o quadro revela que na verdade o principal desafio, e também a mudança mais necessária, é reconhecer a área de captação de recursos como um setor estratégico, que precisa ser profissionalizado.

“Quando a gente está em momentos de crise, sai na frente quem já tem parcerias desenvolvidas, vínculos fortes, comunicação estruturada, visão de longo prazo”, avalia.

Na Abrale – Associação Brasileira de Câncer do Sangue, a vice-presidente Dina Steagall conta que, até o momento, não ocorreram mudanças significativas no perfil dos apoiadores. Principalmente porque a organização busca diversificar a base de investidores sociais. Ainda assim, ela observa que alguns patrocinadores vêm reduzindo o volume de aportes financeiros destinados aos projetos, ao mesmo tempo em que demonstram interesse em contribuir de outras formas,  por meio do compartilhamento de conhecimento técnico ou apoio em recursos humanos.

“Já é possível perceber uma tendência de diminuição de investimentos por parte de alguns players nacionais, o que exige um esforço ainda maior de planejamento e articulação para manter a sustentabilidade das iniciativas desenvolvidas pela organização”, completa.

“Crises podem apresentar oportunidades”

Isso não significa que encarar os próximos nove meses e meio que 2026 ainda reserva trará apenas restrições. Flavia Lang, acredita que as crises também podem apresentar oportunidades, e explica: “Quando tem muita gente contra uma coisa, as pessoas a favor também ficam mais fortes e ajudam mais. Um exemplo foi a explosão de doações recebidas pela a organização de direitos civis American Civil Liberties Union (ACLU) em 2016, vindas de pessoas preocupadas com possíveis retrocessos em direitos civis, logo depois da eleição do presidente norte-americano Donald Trump.”

Lang também pondera que na área de captação internacional, mais do que redução, ela observa uma realocação e mudança de foco. “Para continuar buscando recursos fora com sucesso, podemos falar com consultores ou agências que já têm um relacionamento com essas fundações, sabem como falar com elas, e quais propostas podem ser mais assertivas.”

Entre as oportunidades que ela observa no cenário atual, está o uso de inteligência artificial. “Bem utilizada, tem como apoiar bastante o trabalho do captador de recursos e otimizar tempo. Abre mais oportunidades de propostas e de relacionamento.”

Já Dina Steagall divide a experiência da Abrale, onde tem adotado iniciativas como o desenvolvimento de projetos via leis de incentivo fiscal, o fortalecimento da base de doadores pessoa física, a realização de eventos sociais, ações de marketing relacionadas à causa e o estabelecimento de parcerias com empresas de diferentes segmentos.

A associação também tem avançado no mapeamento e submissão de projetos para grants internacionais de empresas com as quais já mantém relacionamento no Brasil, explorando oportunidades de financiamento em âmbito global. Outra frente estratégica citada por Dina é a mobilização de recursos para o fundo patrimonial Merula Steagall, que tem como objetivo contribuir para a sustentabilidade financeira da Abrale por meio de grandes doações.

“Paralelamente, seguimos investindo no fortalecimento da imagem da instituição por meio de campanhas de comunicação, na prospecção de novos parceiros institucionais e no fortalecimento do relacionamento com os patrocinadores atuais”, finaliza. 


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