Saída do Mapa da Fome marca avanço do Brasil e chama atenção para manutenção de políticas, apontam especialistas 

Por: GIFE| Notícias| 04/08/2025

“É um marco positivo, mas não significa que vencemos o desafio”, diz Ricardo Mota, gerente de Inteligência Estratégica do Pacto Contra a Fome, em uma avaliação sobre a saída do Brasil do Mapa da Fome. A notícia foi divulgada em 28 de julho pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO/ONU). Analisando os desafios futuros, lideranças do terceiro setor mencionam a importância de políticas sistêmicas que garantam comida de qualidade à população e que se sobreponham aos interesses lucrativos.

Essa é a segunda vez que o Brasil sai do Mapa da Fome. A primeira foi em 2014, retornando à lista em 2022, durante a pandemia da Covid-19. Na última semana, o país comemorou novamente a notícia de que mais uma vez está fora do indicador, que analisou à média dos anos de 2022 a 2024, período em que o país conseguiu reduzir o percentual da população em risco de subnutrição ou insegurança alimentar para menos de 2,5%.

“[Esse é um cenário]  que revela um esforço coletivo e institucional importante. Mostra que, quando há vontade política, articulação entre políticas, participação da sociedade civil e ação direta em territórios vulneráveis, é possível reverter um quadro negativo”, comenta Ricardo Mota.

Para Rodrigo Kiko Afonso, diretor Executivo da Ação da Cidadania, iniciativas como a recuperação do Bolsa Família, ampliação do Programa Nacional de Alimentação Escolar, retomada do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e reativação do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA), são fatores fundamentais para o novo cenário. “Saímos de 33 milhões de pessoas com fome em 2021 para cerca de 7 milhões, segundo a SOFI [Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo 2025] da ONU. Isso só foi possível porque o Estado voltou a atuar com protagonismo.” 

Segurança alimentar, uma prioridade

Apesar da saída do Mapa da Fome, o Brasil vive um cenário em que 35 milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar – mesmo o país sendo um dos maiores exportadores de alimentos do mundo.  Em 2021, por exemplo, o Brasil liderou as exportações mundiais de soja, com 91 milhões de toneladas, e ocupou o terceiro lugar na produção de milho e feijão, com volumes de 105 milhões e 2,9 milhões de toneladas, respectivamente. Os dados são do estudo “O Agro no Brasil e no Mundo, edição 2022”, realizado por pesquisadores da Embrapa

“O que se produz aqui não está voltado para alimentar brasileiros, mas para abastecer mercados e bolsas de commodities no exterior. É mais rentável plantar soja para virar ração de gado na China do que plantar feijão para abastecer a periferia de Salvador”, alerta Kiko Afonso, que ainda destaca que a fome no Brasil tem classe social, gênero e raça. “[A fome] é maior entre mulheres negras, em periferias urbanas e zonas rurais pobres”, complementa. 

“Portanto, os próximos passos envolvem garantir segurança alimentar de forma estrutural, com políticas de proteção social mais robustas, fortalecimento da agricultura familiar, distribuição mais equitativa dos alimentos e um ambiente alimentar que promova uma cultura alimentar saudável e sustentável”, destaca Ricardo Mota. 

Caminhos possíveis através do ISP

O Investimento Social Privado (ISP) tem se mostrado uma estratégia fundamental no enfrentamento à fome no Brasil, ao direcionar recursos financeiros, conhecimento técnico e articulação institucional para iniciativas que promovem segurança alimentar de forma estruturada e duradoura. 

“O ISP tem a agilidade, a capacidade de inovação e a independência para atuar em territórios de forma estratégica, complementando o papel do Estado e fortalecendo soluções locais”, observa Ricardo Mota. 

Uma atuação, que como comenta Rodrigo Kiko Afonso, vai além de uma filantropia tradicional e que precisa agir não apenas no “alívio”, mas também “na causa”.  “O combate à fome não se resolve com cestas básicas. Se resolve com transformação de sistemas. E o ISP, se quiser, pode ser protagonista nisso”, conclui.

Associe-se!

Participe de um ambiente qualificado de articulação, aprendizado e construção de parcerias.

Apoio institucional

Translate »