Entre impasses e avanços, filantropia se consolida como ator estratégico na busca por justiça climática
Por: GIFE| GIFEnaCOP| 24/11/2025
Bruno Peres/Agência Brasil
Nas últimas duas semanas, o Brasil voltou ao centro das discussões globais sobre clima. A COP30 terminou na madrugada de sábado (22) com algumas expectativas atendidas, e outras nem tanto.
Na fase final das negociações, temas como as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), o financiamento climático para países em desenvolvimento e a definição da Meta Global de Adaptação dominaram os debates (GGA). A ausência de qualquer referência aos combustíveis fósseis nos documentos divulgados gerou forte reação, já que o “mapa do caminho” era uma das expectativas centrais desta edição. Mesmo assim, o presidente da conferência, André Corrêa do Lago, assegurou que o tema seguirá na agenda.
Uma boa notícia veio de fora da agenda oficial: o lançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre, proposto pelo Brasil, que atraiu compromissos de diversos países, embora deva levar anos até começar a remunerar nações tropicais pela proteção de suas florestas.
Entre organizações da sociedade civil, a principal conquista foi o acordo para estruturar um mecanismo de cooperação voltado às “transições justas”, garantindo apoio técnico e troca de conhecimentos entre países, sempre considerando populações vulneráveis. A decisão reforçou o direito ao consentimento livre, prévio e informado dos povos indígenas e, pela primeira vez, incluiu referências explícitas a afrodescendentes em documentos da UNFCCC — reconhecimento importante para grupos como os quilombolas, presentes em Belém na defesa de seus territórios e de sua contribuição para enfrentar a crise climática.
Filantropia como capital estratégico
Na temática de financiamento, o texto aponta para a necessidade das nações aumentarem os recursos voltados aos países em desenvolvimento, mas sem maiores detalhes sobre como atingir a meta. Foram mencionados também desafios, como o não cumprimento da meta anual de mobilização de US$ 300 milhões.
Dados do Censo GIFE compartilhados durante a COP revelam que 46% das organizações respondentes declaram executar ou financiar iniciativas relacionadas à agenda climática. A 12ª edição da pesquisa bienal mostrou que o volume de recursos da filantropia brasileira para a temática é de R$ 368 milhões, ou seja, cerca de 6% do total.
Cassio França, secretário-geral do GIFE, avalia que ter quase metade das fundações e institutos atuando no tema de alguma maneira é um dado positivo, e que mostra algum sucesso na busca por não restringir o debate apenas aos especialistas. “Sobre o volume de recursos: é pouco. Apesar de que se a gente olhar a média internacional (2%), no Brasil é muito menos do que deveria, mas muito superior à do mundo.”
Para Beatriz Lourenço, diretora de áreas e estratégia do Instituto de Referência Negra Peregum, o problema não é necessariamente a falta de recursos, mas a forma como circulam e estão mobilizados. “A maioria, tanto públicos como privados, não chegam nos territórios, que é onde a crise climática já produz efeitos concretos. Isso não acontece pela falta de capacidade das organizações de operacionalizar, tem a ver com um sistema de financiamento que opera muito fora da realidade, das linguagens e tempos do território.”
De acordo com a diretora, as organizações têm metodologias consolidadas, trabalho de base consistente e diagnósticos profundos. Mas ficam fora dos fluxos de recursos por conta de exigências burocráticas e círculos mais curtos de financiamento.
“Para ter dinheiro para fazer tudo que é preciso em adaptação, mitigação e eventualmente perdas e danos, precisamos de uma economia próspera, que por sua vez precisa dialogar com os desafios da sustentabilidade”, comenta Marcelo Furtado, Head de Sustentabilidade do Instituto Itaúsa.
Nas linhas de atuação de maior incidência das respondentes do Censo GIFE, é possível encontrar ainda investimento em áreas como mobilização comunitária; adaptação climática, justiça climática e reparação; energias renováveis; economia circular; sistemas alimentares e uso do solo; conservação da biodiversidade da fauna; recursos hídricos e oceanos; combate ao desmatamento e grilagem da terra; e educação ambiental.
Esta última muito valorizada por Luciana Costa, diretora de Infraestrutura, Transição Energética e Mudança Climática do BNDES. Para ela, é um dos grandes papéis que a filantropia pode desempenhar de forma crucial, bem como o advocacy e a resiliência climática.
“Eu acredito que o mundo está tão complexo e fazer a transição climática vai ser tão desafiador, que vamos precisar de todos os tipos de dinheiro: da filantropia, do setor privado, de fundos concessionais, fundos climáticos globais”, pondera.
A diretora, no entanto, recorda que antes da assinatura do Acordo de Paris, o mundo caminhava para um aquecimento superior a 4,5ºC em relação aos níveis pré-industriais, cenário que já foi reduzido, embora não haja garantia de que conseguiremos manter o limite de 1,5ºC.
No caso dos recursos vindos da filantropia, o diretor programático do Instituto Arapyaú, Vinicius Ahmar, alerta que é preciso agir com muita inteligência. “Porque é um recurso muito escasso, mas muito especial. Não é um volume que um governo consegue mobilizar numa política pública, mas ele é flexível suficiente para provar algumas coisas e articular com outros atores.”
Financiamento misto, ou blended finance, é um dos exemplos citados por ele como uma alternativa de capital paciente e flexível que pode ser aplicado primeiro pela filantropia, e depois ser alavancado por outros setores.
“Também não podemos esquecer que não somos donos da verdade. Tem pessoas operando lá na ponta que sabem muita coisa. O capital institucional é muito importante para garantir que essas organizações sobrevivam, e consigam entregar suas missões”, finaliza.