Abismo educacional entre jovens negros e brancos expõe o desafio de enfrentar a evasão escolar no Brasil

Por: GIFE| Notícias| 23/02/2026

Crédito: Istock

A disparidade na educação entre jovens brancos e negros no Brasil é um reflexo direto do racismo e da desigualdade econômica, e na educação não é diferente. O país pode demorar 16 anos para superar a disparidade racial na conclusão do ensino médio, se seguir o mesmo ritmo da última década. É o que aponta o relatório do Todos Pela Educação, divulgado no final de 2025. 

O estudo utilizou dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e do PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios). Na última década, o país reduziu as desigualdades raciais a um ritmo médio de 0.8% ao ano. Mantido esse padrão, seriam necessários 16 anos para equiparação. Um em cada quatro indivíduos com até 19 anos está fora da escola sem ter terminado a educação básica. A necessidade de trabalhar e a perda de interesse estão entre os principais motivos para a evasão.

De acordo com o levantamento, 69,5% dos jovens negros e indígenas nessa faixa etária possuem o ensino médio completo, uma disparidade em comparação com os jovens brancos e amarelos, onde o índice alcança 81,7%. Dez anos atrás a diferença era ainda mais acentuada: a taxa de conclusão era de 66,3% para brancos e de apenas 46% para jovens negros.

Daniela Mendes, mestra em Administração Pública e Governo, e coordenadora de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação, explica que a pesquisa surgiu do interesse da instituição na democratização do acesso à educação de qualidade.

“O ponto de partida é dar luz à esse problema, que precisa ser enfrentado. Para qualificar o debate público, e influenciar a tomada de decisão dos gestores públicos. Reunir esforços para mudar esse cenário”, explica.

Para Daniela, o ponto central da questão vai além da própria educação, os desafios enfrentados por esses jovens estudantes são de origem estrutural.

“É importante considerar que estamos falando de jovens, do final do ensino fundamental até o ensino médio. São jovens que já possuem um certo grau de maturidade em relação à perspectiva, sonhos e interesses. Para esses jovens a escola passa a ter mais ou menos sentido para a vida a partir da perspectiva de futuro que eles têm sobre eles mesmos”, explica Daniela Mendes.

Políticas Públicas

Uma das soluções ao problema perpassa pela implementação de políticas públicas. O programa Pé de Meia é citado no estudo como uma política que pode acelerar a mudança necessária na educação do país. O programa consiste em oferecer  aos alunos que frequentam regularmente a escola auxílio econômico através de bolsas. 

Thiffanny Odara, pedagoga e mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação e Contemporaneidade (PPGEDUC – UNEB), explica que, apesar da medida contribuir no combate ao problema, questões centrais como o racismo ainda precisam estar no centro da discussão.

“Acredito naquilo que Paulo Freire já dizia, e nós ratificamos: ‘A leitura do mundo antecede a leitura dos livros’. Mas quais são as leituras que devemos fazer? Quais são os fatores determinantes de afastamento e expulsão compulsória desses jovens? Fatores econômicos? Políticos? Saneamento Básico?”, indaga a educadora.

Thiffany Odara pontua que é preciso se debruçar e romper com o que ela chama de “muros visíveis e invisíveis”. De acordo com ela, o Estado precisa construir uma política pública e uma extensão de ensino capazes de compreender as questões raciais como centrais. 

“Existe hoje um esforço por parte do governo federal, e de governos locais, em implementar auxílios-permanência para jovens, mas precisamos discutir que o racismo é um eixo central nessa desmobilização, nessa falta de interesse [em continuar os estudos]”, explica.

Sociedade Civil

Para além da responsabilidade do Estado e de suas políticas públicas, a sociedade civil também exerce um importante papel na permanência e adesão das crianças e adolescentes dentro do sistema de educação. Tanto na cobrança aos governos e lideranças políticas, quanto na orientação desses jovens em entender a escola como instituição fundamental para o desenvolvimento pessoal e profissional.

“A sociedade civil tem um papel muito importante de apoiar e cobrar as redes de ensino para melhoria das políticas educacionais. O terceiro setor também. É esse papel de ampliação de horizontes, de comunicar a importância da escola para o projeto de vida desses jovens”, pontua Daniela Mendes.

Thiffany Odara salienta que o projeto político-pedagógico prevê essa participação, só que é preciso, para além das leis, a implementação. “Como nós, sociedade civil, podemos nos debruçar sobre esse problema? Tem de ser uma ação conjunta com o Estado, para além dos conselhos, que são órgãos monitoradores, construtivos e importantes. Isso precisa sair do papel e ir mais à prática”, finaliza a educadora.


Apoio institucional

Translate »