Comunicação ganha centralidade como instrumento de reparação e justiça simbólica

Por: GIFE| Notícias| 27/04/2026

O debate sobre reparação, entendido como o conjunto de ações voltadas à correção de desigualdades históricas e violações de direitos, tem avançado para além das dimensões econômicas e institucionais. A comunicação é um dos setores que passa a figurar como uma frente estratégica para reconstrução de narrativas e fortalecimento da democracia.

O que repercute no Investimento Social Privado (ISP). Dados do Censo GIFE 2024–2025 mostram que o setor mobilizou R$ 5,8 bilhões em 2024, com parte relevante desses recursos destinada a iniciativas sociais, ambientais e de interesse público. Nesse contexto, cresce a percepção de que a disputa por narrativas também integra o campo da reparação.

Para Vitória Régia, vice-presidenta do Conselho Deliberativo e Executivo da Associação de Jornalismo Digital (Ajor) e diretora da Gênero e Número, a comunicação atua diretamente na dimensão simbólica das desigualdades. “A reparação não se dá apenas no plano material ou jurídico. Ela também acontece no campo simbólico, que é onde se disputam sentidos, legitimidades e formas de existir no mundo”, afirma.

Segundo ela, no Brasil, as desigualdades históricas também se expressam em lacunas informacionais. “Estamos falando de ausências: de dados que não foram produzidos, de histórias que não foram contadas e de sujeitos que foram sistematicamente invisibilizados”. Nesse cenário, a produção de informação qualificada contribui para reposicionar grupos historicamente marginalizados como sujeitos políticos.

O fortalecimento desse campo, no entanto, depende de investimento contínuo. O Censo GIFE aponta que 78% das organizações repassam recursos a terceiros, sendo que 72% destinam apoio a organizações da sociedade civil (OSCs), que atuam diretamente nos territórios e na produção de informação. Ao todo, R$ 1,3 bilhão foi direcionado a essas organizações em 2024.

“Não existe disputa de narrativa sem infraestrutura”, destaca Vitória Régia. “Produzir informação, investigar, sistematizar dados e fazer isso chegar a diferentes públicos exige recursos, equipe e continuidade”. Para ela, o financiamento é também uma forma de redistribuir poder no ecossistema informacional, historicamente concentrado.

O cenário de atuação de comunicadores reforça a urgência desse debate. Pesquisa da Gênero e Número em parceria com a Repórteres Sem Fronteiras indica que 85,6% dos entrevistados associam a naturalização de ataques a jornalistas à desinformação, enquanto mais da metade afirma que esse ambiente impacta sua rotina profissional.

Nesse contexto, o fortalecimento de um ecossistema de mídia diverso e independente é apontado como condição para a não repetição de violências. “Quando ampliamos o número de organizações capazes de produzir informação qualificada, aumentamos também a capacidade de monitoramento, denúncia e incidência”, afirma Vitória Régia.

Para investidores sociais, o desafio passa por incorporar a comunicação como eixo estratégico. Isso inclui ampliar o financiamento de longo prazo, apoiar a diversidade de iniciativas do jornalismo investigativo à comunicação popular, e investir em infraestrutura compartilhada, como bases de dados e redes colaborativas.

“A reparação, nesse campo, também passa por criar condições coletivas para que mais atores possam produzir, acessar e disputar informação de qualidade”, conclui.


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