Entre o verde e o concreto: falta de arborização no Brasil escancara os efeitos da desigualdade social
Por: GIFE| GIFEnaCOP| 03/11/2025
Crédito: Istock
As árvores são aliadas essenciais na luta contra as mudanças climáticas. Seus benefícios são tantos que a Organização das Nações Unidas (ONU) defende que, pelo menos 30% dos bairros, sejam cobertos por copas de árvores. No Brasil, mais de 30% dos domicílios estão em áreas sem a presença delas, segundo dados da Pesquisa Urbanística do Entorno dos Domicílios, do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Cidades como Belém (PA) – sede da COP30 – sofrem os impactos que estão intimamente ligados a desigualdade social do país.
De acordo com informações divulgadas pelo Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCARBON/USP), as árvores exercem papel essencial na regulação das chuvas e na absorção do dióxido de carbono (CO₂) presente na atmosfera, contribuindo para a redução dos gases que intensificam o efeito estufa.
“Para as cidades, a arborização e as áreas verdes, de modo geral, ajudam a reduzir as ilhas de calor causadas pelo excesso de asfalto, concreto e cimento. Além disso, a presença delas contribui para melhorar a qualidade do ar, proteger o solo, aumentar a biodiversidade e gerar muitos outros benefícios ambientais e sociais”, destaca Pedro Nassiff, graduado em Gestão Pública para o Desenvolvimento Econômico e Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e técnico em Agroecologia pelo Colégio Técnico da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).
O técnico tem utilizado suas redes sociais para denunciar as desigualdades escancaradas através da presença ou falta de vegetação nas cidades do Rio de Janeiro.
“O racismo ambiental se faz presente quando percebe-se que o metro quadrado mais caro para se morar no Brasil são os bairros do Leblon e Ipanema, coincidentemente também são os mais arborizados do Rio de Janeiro. Enquanto isso, Irajá, Bangu, Santa Cruz e outros bairros, historicamente constituídos por população pobre, periférica e negra, são os menos arborizados e batem recordes de temperatura a cada ano que passa”, reflete.
Entre o cinza e o verde
Os dados da Pesquisa Urbanística do Entorno dos Domicílios mostram que 33,17% dos logradouros brasileiros não possuem uma árvore sequer. Quando esse número é destrinchado a partir das realidades internas dos municípios é possível detectar a influência da desigualdade social e do racismo ambiental, como apontou Pedro Nassif.
Nem mesmo Belém, sede da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), está imune a essa realidade. Segundo dados da pesquisa mencionada, 54,53% dos domicílios da capital paraense estão localizados em áreas sem nenhuma árvore. Com base em um levantamento detalhado da distribuição de áreas verdes por bairro, o site Sumaúma, utilizando dados exclusivos da pesquisa vinculada ao IBGE, identificou que três bairros periféricos concentram os menores índices de arborização da cidade. São eles: Miramar, onde apenas 2% dos moradores têm alguma vegetação na via em que residem; em Brasília, no distrito de Outeiro, apenas 14% dos habitantes vivem em ruas com presença de árvores; e em Benguí, apenas 18% dos moradores vivem em ruas que possuem ao menos uma árvore.
Pensando soluções
“A ausência de arborização revela, de forma muito clara, o crescimento urbano desordenado e a falta de planejamento nas cidades brasileiras, sobretudo nas periferias. Nessas áreas, a escassez de árvores se combina com infraestrutura precária e condições de moradia inseguras”, observa Renata Ruggiero, presidente do Instituto Motiva.
Para ela, o Investimento Social Privado (ISP) tem papel estratégico na promoção da justiça socioambiental e na reversão desses cenários de escassez verde nas cidades. Ela destaca que, ao incorporar a pauta ambiental em suas ações, o ISP pode contribuir para transformar territórios vulneráveis em espaços mais saudáveis, seguros e acolhedores.
“Isso vai muito além de plantar árvores: é sobre criar áreas de lazer, bem-estar e pertencimento, além de oportunidades de engajamento comunitário”, afirma. Segundo Renata Ruggiero, iniciativas desse tipo fortalecem vínculos sociais, melhoram a saúde física e mental da população e ajudam a construir cidades mais resilientes e justas.
Nesse sentido, ela reforça o papel da COP30. “O terceiro setor, em especial, atua como elo estratégico entre comunidades vulneráveis e soluções sustentáveis, garantindo que os benefícios da sustentabilidade cheguem a quem mais precisa. A COP30 é uma oportunidade única de fortalecer essas conexões e consolidar o compromisso do Brasil com uma agenda ambiental justa, inclusiva e transformadora”, conclui.