‘Eu quero botar meu bloco na rua’: blocos tradicionais enfrentam dificuldades no Carnaval
Por: GIFE| Notícias| 09/02/2026
Saída de bloco de rua, em São Paulo (SP). Istock
O carnaval, uma das festas mais famosas do país, mudou muito ao longo dos anos. As bandas de rua e blocos populares ocupam cada vez menos espaço na avenida e dão lugar aos chamados “mega-blocos”.
O poder público tem, no geral, focado cada vez mais em nomes famosos da música para atrair foliões e turistas, visando aquecer ainda mais a economia das cidades que realizam a festa momesca. No entanto, por vezes esse mesmo investimento não é visto em blocos menores, e desprivilegia o importante capital cultural, social e econômico que esses grupos trazem para suas regiões.
Carlota Joaquina é fundadora e presidente do Bloco “Agora Vai”, que existe há 22 anos em São Paulo (SP). Nascido em 2004, na Barra Funda, zona oeste da cidade, o bloco popular que começou tímido hoje arrasta mais de 40 mil foliões e conta com uma equipe de cerca de 214 pessoas. Só na bateria são 90 colaboradores. Outras se dividem no balé político, uma sessão coreografada do desfile; a ala de standards com convidados que carregam os dizeres políticos do bloco, e entre muitos outros profissionais, como cantores, músicos e pessoas da produção.
“Começamos fazendo isso tudo nós mesmos, cidadãos, levando nossos carrinhos e microfones. No primeiro ano saímos com figurinos, depois inventamos as cores. Nascemos organicamente, formando uma bateria com vendedores dos bairros. Hoje temos uma escolinha de bateria, ministrada durante todo ano”, conta Carlota Joaquina.
A presidente relata que, por pouco, o bloco não sairia no carnaval deste ano por conta da falta de investimento e apoio do poder público. O ‘Agora Vai’ conseguiu subsidiar o desfile desta edição após um edital privado ser realizado no fim de 2025.
“Ano passado conseguimos R$ 25 mil em fomento pela prefeitura, junto com 100 outros blocos. Este ano, não conseguimos inscrever o bloco. Quase não saímos. Então uma empresa de Belo Horizonte, através de edital, aprovou três blocos de São Paulo para investimento, o nosso incluso. Eles depositaram R$ 20 mil para cada um”, explica.
Investimento social é uma alternativa
Essa é a primeira vez em 22 anos que o bloco trabalha com investimento privado e patrocínio de marcas. A fundadora conta que é desafiador encarar essa nova realidade, mas que é preciso se adaptar para dar continuidade ao bloco e toda a comunidade que se formou em torno dele.
Tadeu Kaçula, sociólogo, mestre e doutor em Mudança Social e Participação Política pela Universidade de São Paulo (USP) explica que existe uma tensão entre poder público e quem produz, trabalha e opera a cultura na cidade, sobretudo no período do carnaval. “O que volta para os cofres públicos em termos de desenvolvimento, emprego direto e indireto, desenvolvimento econômico, turismo, rede de fast food e hoteleira supera em muito o que é investido nesses blocos”, explica.
Os grandes blocos ainda conseguem, em alguma medida, parcerias com a iniciativa privada, principalmente os que desfilam nas regiões centrais, onde a classe média alta têm mais acesso à captação de recursos. Porém, na periferia, as marcas não se interessam em investir em blocos que estão nas ‘quebradas’. “Se a prefeitura não tem recursos para dar conta desses blocos, é função da gestão pública estimular a iniciativa privada, e as marcas, para investir nos que possuem menos estrutura”, defende Tadeu Kaçula.
Os blocos de rua privilegiam áreas que geralmente não fazem parte do circuito tradicional, como periferias e favelas, oferecendo cultura e entretenimento para a população. O sociólogo salienta que, através desses blocos, essas pessoas estabelecem uma relação de sociabilidade, de pertencimento à cidade, que é sistematicamente excludente.
“Se estabelece uma relação intergeracional, sobretudo à essa parte da cidade que é invisibilizada. Essas relações são fundamentais para poder manter a dignidade humana e manter essas pessoas produtivas, criativas na manutenção de uma tradição afrodiaspórica”, finaliza o sociólogo.