Insegurança alimentar na infância ainda é realidade no Brasil
Por: GIFE| Notícias| 06/10/2025
Crédito: iStock
A insegurança alimentar segue como uma das faces mais duras da infância no Brasil. Embora o país tenha avançado no combate à fome nos últimos anos, números recentes revelam que muitas crianças ainda não têm acesso garantido a refeições suficientes e de qualidade. Em 2023, 37,4% das crianças brasileiras de até quatro anos viveram em lares marcados pela insegurança alimentar, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PnadC/IBGE), divulgada em 2024.
Os números do levantamento revelam que meninos e meninas, em algum momento, cresceram sem a certeza de ter comida suficiente em casa. Do total apresentado, 26,6% conviviam com insegurança leve, 6,3% moderada e 4,5% grave.
A desigualdade regional acentua o problema. Dados do Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica (SISAB) mostram que o Norte e o Nordeste concentram os maiores percentuais de domicílios em risco: 14,6% e 10,9%, respectivamente. Por outro lado, no Sul a taxa não chega a 1%. O cenário escancara a necessidade de estratégias específicas para cada território, considerando realidades tão distintas.
“Tem uma questão de renda que é extremamente importante, mas não só isso. Hoje, o que acaba acontecendo em muitos países, inclusive no Brasil, é que o acesso ao alimento não saudável, principalmente entre famílias de baixa renda, é mais fácil”, destaca Márcia Kalvon, diretora-executiva do Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis).
“Trata-se do alimento ultraprocessado, cujo problema é ser pobre em nutrientes, comprometendo os aspectos nutricionais da dieta. Assim, hoje temos uma combinação de fatores que dificultam que determinadas populações tenham uma segurança alimentar e nutricional adequada”, completa.
Nesse contexto, o 7º Fórum de Políticas Públicas da Saúde na Infância, realizado no fim de setembro em São Paulo pelo Infinis, trouxe contribuições relevantes. Especialistas destacaram que quase 600 mil crianças brasileiras de até cinco anos ainda vivem em situação de insegurança alimentar grave, reforçando a urgência de políticas públicas consistentes e da mobilização de diferentes setores.
Entre os caminhos apontados, o Investimento Social Privado (ISP) aparece como força complementar ao Estado. Empresas e institutos podem ampliar o impacto por meio de apoio a programas de merenda escolar, incentivo a iniciativas comunitárias de acesso a alimentos frescos e financiamento de pesquisas que orientem políticas públicas mais eficazes.
Márcia Kalvon chama atenção para a necessidade do ISP estar atento às diferentes demandas regionais. “Quando a gente olha a prevalência, percebe que o Norte e o Nordeste apresentam um descompasso, e a atuação do investimento social privado não está em sintonia com os locais onde se concentram os maiores desafios. E é justamente aí que nós, inclusive no Infinis, temos buscado atuar”, finaliza.